quarta-feira, 13 de maio de 2015

BARTOLOMEU O PORTUGUÊS E O CÓDIGO DE CONDUTA DOS PIRATAS

 
 

 
 
 
 
A história da pirataria nas Índias Ocidentais (Caraíbas e Antilhas), encontra-se repleta de narrativas descrevendo os ataques perpetrados por ingleses franceses e holandeses contra os espanhóis naqueles mares. Colonos franceses expulsos da ilha de Hispaniola (atual ilha do Haiti e República Dominicana), antigos caçadores de búfalos e porcos selvagens, tornaram-se piratas, tendo sido apelidados de "Boucan" ou "Boucanniers" (do termo inglês "Boucanneers"), em português Bucaneiros. Expulsos e perseguidos do território espanhol, os caçadores juntaram-se a grupos de escravos e cortadores de lenha do México que tinham fugido, desertores, antigos soldados e outros que tinham sido atacados por navios espanhóis, por isso, este tipo de pirata tinha grande ódio aos espanhóis e semearam a vingança nos navios destes. Em meados do século XVII, a palavra "bucaneiro" aplicou-se à maioria dos piratas e corsos que eram originários de bases das Índias Ocidentais. Os primeiros quartéis militares dos designados "bucaneiros" foram na ilha da Tartaruga, a 7 km a noroeste da ilha de Hispaniola, (não confundir com Isla Tortuga a norte da Venezuela). Mais tarde os "bucaneiros" usaram a Jamaica para base das suas operações, e capturaram o Panamá em 1671. Eram na sua maioria homens rudes, aparentemente selvagens, e atiradores distintos, passaram a procurar a subsistência onde a podiam encontrar: aos barcos e às colónias espanholas. Os designados "bucaneiros", começaram a atuar seguindo um conjunto de regras variado, chamado Chasse-Partie, Charter Party, Custom of the Coast ou Jamaica Discipline. Mais tarde, as regras ficaram conhecidas como Articles of Agreement ou Código Pirata. As regras piratas variavam de um capitão para outro, até mesmo de uma viagem para outra, mas geralmente assemelhavam-se no que dizia respeito à manutenção da disciplina, às especificações sobre a divisão dos tesouros entre os tripulantes, a designada Chasse-Partie, assim como a compensação aos feridos. Cada membro da tripulação era convidado a assinar ou a deixar a sua marca no código para, em seguida, fazer um juramento de fidelidade ou honra. Geralmente, o juramento era feito sob uma Bíblia, chegando alguns a fazer esse juramento sob um machado. De acordo com algumas lendas, houve piratas que juraram sob pistolas cruzadas, espadas, crânios humanos e até sob canhões. Em geral após o início de navegações piratas, os novos recrutas, provenientes de navios capturados, eram persuadidos a assinar o código, algumas vezes voluntariamente, outras, eram torturados ou ameaçados de morte. Os chamados artesãos do mar e navegadores, eram os mais suscetíveis de serem forçados a assinar regras sob coação e raramente seriam libertados independentemente da sua decisão de assinar ou não. Em alguns casos, mesmo os recrutas voluntários pediam aos piratas para forçá-los a assinar o código. Faziam isso para, em caso de serem capturados pela lei, poderem alegar que tinham sido forçados a assinar esse código. O Código Pirata foi escrito e reescrito durante muitos anos e cada capitão pirata tinha o seu código, no entanto quatro códigos completos, ou parcialmente completos, sobreviveram. Foram publicados principalmente na obra  A General History of the Pyrates de Charles Johnson em 1724.




                                                 Mapa das Caraíbas, de Joannes Janssonius, 1636 (col. priv.)





                                                 Batalha naval na baia de San Francisco de Campeche, meados do séc. XVII (col. pess.)


                                


                                                  Mapa das ilhas de Hispaniola e Tartaruga, por Jacques Nicolas Bellin 1764 (col. priv.)




                                                       Aspeto de "bucaneiros" típicos da ilha de Tartaruga em meados do séc. XVII,
                                                                                       ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)



          
                                                                                                Ilustração de típico pirata "bucaneiro"
                                                                                                              das Caraíbas (col. priv.)




                                          O galeão espanhol Nossa Senhora de la Concepcion, pintura a óleo do sec. XVII (col. priv.)




                                                                   Instauração do primeiro Código de Conduta dos Piratas (arq. priv.)

     




       Ataque de piratas "bucaneiros" à cidade do Panamá, ilustração do livro The Buccaneers of America (col. priv.)
  

                                                                                                               


                                                                    Livro e ilustração The General History of Pyrates (col. priv.)
 



                                                              Ataque de piratas a barco espanhol em meados do séc. XVII (col. priv.)
   




Um código parcial de Henry Morgan, famoso pirata inglês que saqueou grande parte das Caraíbas e que chegou a governador da Jamaica, foi preservado no livro The Buccaneers of America, de Alexandre Olivier Exquemelin, publicado na Holanda em 1678. Muitos outros piratas tiveram códigos. Muitos destes se perderam devido à conduta pirata de, na iminência de uma captura ou rendição pela lei, queimar ou jogar as regras no mar para que as mesmas não fossem usadas contra eles nos seus julgamentos. Código Pirata, terá muito provavelmente inspirado códigos de sociedades, modelos de governação, estatutos de partidos políticos e até mesmo constituições de repúblicas. É de lembrar que o Código Pirata, que tem como alicerce o princípio de que os homens são todos iguais, e reconhece a democracia, ainda que musculada, como forma de tomar decisões, foi escrito antes da revolução francesa. Mas será um pirata e corsário português do século XVII, de seu nome Bartolomeu, podendo até dizer-se que foi um pirata legislador, famoso por ter sido o responsável pelo estabelecimento e aplicação do primeiro código de regras popularmente conhecido como "O Código da Pirataria", usado posteriormente a partir do século XVII por piratas famosos.





       Paginas do livro The Buccaneers of America e capitulo referente a Johan Morgan (col. priv.)
 

 

       Batalha naval entre piratas e espanhóis, ilustração do livro The Buccaneers of America (col. priv.)
    

 

 


       Momento da recompensa dos piratas, chamado Chasse-Partie, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)

 

 

 




 
           Código de Conduta dos Piratas
-Todo o Pirata tem que seguir o código pirata.
 
-Todo o homem tem direito a voto nas questões do momento, direito a uma porção igual de   provisões e utilizá-las ao seu modo, a não ser que a escassez obrigue o racionamento.
 
-Todo o homem só pode ser chamado no seu turno, conforme a lista, pois fora dele está livre para descansar e fazer o que desejar. Porém se defraudar a companhia, o castigo é ser abandonado numa costa deserta para ser encontrado por outro navio.
 
-Ninguém pode jogar cartas ou dados a dinheiro.
 
-As velas devem ser apagadas às oito horas da noite. Depois desta hora quem desejar continuar a beber deve fazê-lo no convés.
 
-As pistolas, espadas e demais armas devem sempre estar limpas e prontas para a batalha.
 
-Crianças e mulheres não são permitidos a bordo. Quem embarcar pessoas disfarçadas é punido com a morte.
 
-Desertores durante os combates são punidos com abandono numa costa deserta ou morte.
 
-As disputas são resolvidas em terra com um duelo de pistolas ou espadas. Vence o duelo de pistolas quem não for atingido. No duelo de espadas perde o primeiro a sangrar.
 
-Ninguém pode desistir da pirataria enquanto não juntar mil libras. Se ficar incapacitado deve ser indemnizado com oitocentos dólares e assim proporcionalmente para ferimentos menores.
 
-O capitão e o contramestre devem receber dois quinhões do saque ou tesouro. O imediato, o mestre e o oficial armeiro, um quinhão e meio e demais oficiais um quinhão e um quarto.
 
-Os músicos podem descansar na noite do Sábado, mas não nos demais dias a não ser que tenham um favor especial.

 

                                          Pirata punido com desterro em ilha deserta, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.) 
Este pirata "bucaneiro" da Jamaica, era conhecido como Bartolomeo el Portugues (Bartolomeu o Português), do qual não se sabe ao certo a data do seu nascimento nem de onde era originário em Portugal. Era ao que se sabe, profundamente católico, andando sempre de crucifixo ao peito. Aparentemente não era um típico "pobre desgraçado" quando deu início à sua carreira de pirata. Possuía certamente capital adequado para investir em tamanha aventura, após ter participado em diversos assaltos ao longo da costa do México antes da sua chegada ao Mar das Caraíbas em 1665. De fato, Bartolomeu terá principiado a sua independente empresa navegando entre Jamaica e Cuba por volta de 1662 a bordo de uma pequena embarcação de que se apoderou em Manzanillo, com trinta homens e quatro canhões. Já por volta de 1663, no Cabo Corrientes, na costa oeste de Cuba, avistou um galeão espanhol vindo de Maracaibo e Cartagena, com destino a Havana e a ilha de Hispaniola, estando equipado com vinte canhões e setenta pessoas entre passageiros e marinheiros. Apesar da desigualdade, quer ofensiva quer defensiva, Bartolomeu atacou o barco espanhol, mas falhou na primeira tentativa de abordagem. Retrocedendo um pouco, voltou de novo à carga com tamanha fúria que, finalmente, conseguiu capturar a embarcação espanhola. Nesta refrega o pirata português perdeu dez homens e quatro ficaram feridos, enquanto os espanhóis sofreram o dobro de mortos e feridos. Num gesto de rara generosidade, Bartolomeu poupou a vida dos prisioneiros transferindo-os para um barco a remos com destino a Havana, enquanto a bordo ficaram quinze espanhóis como tripulantes.
Bartolomeu tencionava prosseguir viagem para a Jamaica, para alcançar Port Royal, porém, devido a ventos contrários, teve de rumar para o Cabo San António, na costa oeste de Cuba. Sonhava descansar ali e avaliar o tesouro recolhido. Mas tal não aconteceu, visto que os piratas foram surpreendidos por três naus espanholas, que facilmente subjugaram Bartolomeu e a tripulação. Levantou-se no entretanto, uma tempestade tropical forçando os quatro barcos a rumar para San Francisco de Campeche no Sudeste da Nova Espanha (México). Quando os comerciantes e magistrados locais tiveram conhecimento que Bartolomeu se encontrava entre os prisioneiros, foi determinado enforcá-lo no dia seguinte. Aparentemente, além de forte e destemido, Bartolomeu era igualmente um indivíduo deveras astucioso. Falava correntemente espanhol, pelo que soube então por um dos marinheiros a sorte que lhe estava reservada. Embora acorrentado, esperou que caísse a noite conseguiu quebrar as algemas e matar a única sentinela a quem o haviam confiado.


 
 

     Paginas do livro The Buccaneers of America e capitulo referente a Bartholomeus the Portuguees (col. priv.)
 
 
 
                                         Crucifixo de pirata, idêntico ao que terá usado Bartolomeu o Português,
                                                                         achado arqueológico na zona das Caraíbas (col. priv.)
 
 
 

     Ataque perpetrado por barco pirata a galeão espanhol, pintura a óleo de meados do séc. XVII (col. priv.)
 



                                                                             Vista de Port Royal em meados do séc. XVIII (col. priv.)
                                 

 

    Carta da América Central das províncias de Tabasco, Chiapa, Verapaz, Guatemala, Honduras e Yucatan,
                                                                                       por Jacques Nicolas Bellin 1764 (col. priv.)
                                                                     


 
                                                    Ataque de barco espanhol a piratas, pintura a óleo de finais do séc. XVII (col. priv.)


 

 

      Vista de San Francisco de Campeche e Golfo das Honduras em 1644 (arq. National Library of Netherlands)





O barco onde Bartolomeu estava aprisionado, e separado dos seus companheiros, encontrava-se fundeado fora da barra, no porto de San Francisco de Campeche e Bartolomeu não sabia nadar. Valeu-se então, duma extraordinária artimanha, agarrando-se a dois potes de barro utilizados habitualmente para vinho, envoltos em peças de oleado, que lhe serviram de flutuadores e atirou-se ao mar nessa espécie de "salva-vidas", remando com remos improvisados chegou a terra firme. Durante três dias permaneceu escondido na floresta, desviando-se do litoral, evitando os pântanos e crocodilos. Durante o tempo que permaneceu escondido, enquanto soldados espanhóis o procuravam por toda a parte, Bartolomeu seguiu a costa caminhando de noite e alimentando-se exclusivamente de mariscos e de frutos selvagens, como não sabia nadar, para atravessar rios fabricava jangadas grosseiras com pedaços de madeira apanhados nas aguas e atado com lianas. Ao cabo de duas semanas de miséria e terror, Bartolomeu finalmente alcançou o outro lado da costa, ao golfo de Triste, a baia da Tristeza, no leste da península de Yucatán. Um antigo ponto de encontro de piratas da Jamaica, onde se encontrava um "bucaneiro" inglês que reparava o seu barco e o levou até Port Royal. Depois de breve descanso, este juntamente com piratas amigos, apetrecharam o barco com vinte voluntários. Oito dias depois chegavam a San Francisco de Campeche, em cuja enseada entraram ao cair da noite, capturando surpreendentemente o mesmo barco que servira de prisão a Bartolomeu. Imediatamente, evitando a perseguição, os piratas levantaram as amarras e navegaram rumo à Jamaica. Novamente, a má sorte acometeu Bartolomeu o Português, quando uma violenta tempestade arremessou e destruiu o barco na ilha dos Pinos, a sudeste de Cuba. O barco continha uma carga de 600 kg de cacau e as 700 moedas de ouro que tinham sido furtadas, passado pouco tempo naufragou. Forçados a abandonar a embarcação e carga, os piratas escaparam numa canoa e assim chegaram à ilha de Tartaruga na Jamaica.
Presumivelmente, Bartolomeu terá ali organizado muitos outros ataques e assaltos de pirataria, mas sempre sem obter grandes sucessos. A má fortuna perseguia-o continuamente. Bartolomeu o Português teve incontáveis aventuras, mas tornou-se mais conhecido como o "pirata desventurado". Por fim doente e sem meios, dedicou-se à mendicidade diante das tabernas, vindo a morrer esquecido em 1669 na Jamaica. Alexandre Olivier Exquemelin escreveu a propósito na sua obra The Buccaneers of América: "fez vários e muito violentos ataques a embarcações espanholas sem deles fazer muito lucro, eu vi-o morrer na maior miséria do mundo". Foi um indivíduo cujo sucesso dependia das suas artimanhas, pouco mais se sabe acerca da sua vivência na Jamaica, apenas que a Fortuna foi sempre adversa ao nosso Bartolomeu o Pirata Português das Caraíbas-Antilhas, e a prova de que o crime não compensa.



                                         Bartolomeu o Português fugindo ao suplício, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)
 
                            

 
                                                                  Mapa do Golfo Triste a leste da península de Yucatán (col. priv.)





       Assalto de piratas comandado por Bartolomeu o Português, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)

 

     Naufrágio da embarcação de Bartolomeu o Português na ilha de Pinos em Cuba (col. priv.)




                                                       Moedas espanholas de ouro e prata do séc. XVII (col. priv.)




                                                                          Ilha Tartaruga na costa norte de Hispaniola (Haiti) (col. priv.)
                                                                          



Ambiente de piratas em convívio numa taberna (arq. priv.)

                                                                   


                                                                  Alusão em cromo de 1888 ao pirata Bartolomeu o Português (col. pess.)

                                                         
 
                                           


Desde há muitos anos que uma verdadeira maré de literatura se apoderou do tema dos piratas ou corsários que, durante cerca de três séculos, tornaram os mares inseguros. Uma série de livros fundamentados cientificamente e em documentos originais procurou ir ao fundo do assunto da pirataria, em todos as suas vertentes. A típica imagem dos piratas, conforme o senso comum, deu necessariamente origem à livre formação de outras, apresentadas com êxito, como livros de aventuras, comédias, histórias aos quadradinhos, filmes e séries para televisão. A imagem de espadas e pistolas em constante movimento, homens de semblante feroz, com vendas nos olhos, pernas de pau e ganchos-próteses nos braços decepados, invadindo as cobertas dos navios conquistados, acentuando ainda mais o aspecto anárquico das gravuras, executando raptos monstruosos de beldades louras, para que estas, um pouco mais tarde e após ações violentas de toda a espécie, lhes ofereçam herdeiros capazes de revolverem caixotes de ouro, enterrando os seus tesouros em recantos secretos de ilhas solitárias, terminando finalmente, como seria de esperar, no meio do regozijo geral, pendurados na forca da justiça. Certamente existem determinadas características comuns a todos os piratas, desde as mais sórdidas, mais ou menos famosos, aventureiros, da qual se podem sair mal ou bem, dado o fim semelhante que os espera a todos. A categoria dos piratas vai desde o brutamontes grosseiro, até ao elegante cavalheiro e snob aristocrata, do bandido de baixa condição, até ao almirante e fundador de uma esquadra, do proprietário de uma pequena embarcação, até ao comandante de um navio de 70 canhões, passando pelo analfabeto, ao professor ou o reformador social e combatente da liberdade.



                                                        Ataque de piratas com canhões, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)




                                                                                         Típico mapa de tesouro pirata (arq. priv.)
 



                                                      Ambiente típico de piratas, ilustração de Edward Mortelmans (col. pess.)
 

                                                          



Houve sempre a tendência de dar um aspecto romântico, inofensivo e até idealista, à pirataria do mar, o que nunca se justificou. Do mesmo modo, muitas vezes, na base da propaganda diabolicamente espalhada, sempre se cuidou de dar uma cor bastante negra a esta criminosa actividade. Também foi uma atitude injusta. Ninguém no entanto pretende contestar a sua existência à "média - luz" da Lei, a sua margem ou até ao outro lado da fronteira lícita. Ninguém poderá negar o seu significado histórico, muitas vezes até incluído na história universal. Muitos piratas foram enforcados, muitos outros tiveram a honra de ser homenageados em monumentos, mas, em ambos os casos, com inteira justiça. Desde o século XIX, as bases piratas nas Caraíbas ou no Oceano Índico haviam desaparecido. Na era dos construtores de impérios, os homens apaixonados pela a aventura faziam carreira no exército ou na marinha. De tempos a tempos alguns grupos de pretensos piratas lançavam um desafio às forças da ordem, fazendo assaltos audaciosos, mas isolados e no alto mar. Todavia, esses assaltos não passavam de proezas esporádicas e de curta duração. Hoje, a época dos grandes flibusteiros/bucaneiros, dos corsários e dos piratas pertence ao passado; a glória e a vergonha desses anos dramáticos estão enterradas, mas não mortas, entre as lagoas azuis, as palmeiras esbeltas e as areias douradas. O mar é inexorável e manifestamente impiedoso ao verdadeiro carácter de um homem, à sua pequenez e à sua grandeza, aos seus crimes e à sua glória, como reza o antigo provérbio: " Os homens são grandes em terra, mas no mar são ainda maiores."



 
                                                                           Veleiro ao pôr do sol em aguas calmas (arq. priv.)
                                                       
 
 
 
 
 

Texto:
Paulo Nogueira
 



Fontes e bibliografia:

EXQUEMELIN, Alexandre Olivier, The Buccaneers of America, 1678, Holanda
JOHNSON, Charles, A General History of the Pyrates, 1724, p. 398
MONDFELD, Wolfram Zu, O grande livro dos piratas, 1979, 1ª edição, Círculo de Leitores, Lisboa
GILBERT, John, PIRATAS E CORSÁRIOS, Outubro de 1976, Verbo Editora, Lisboa


sexta-feira, 1 de maio de 2015

DIA INTERNACIONAL DO TRABALHADOR

 
 

 
 
As referências simbólicas deste período do ano vêm de longe. Os romanos festejavam entre 30 de Abril e 3 de Maio as "Floralias", festa dos cereais e das flores. A Idade Média manteve viva a tradição, em comemorações pela "expansão da primavera" ou o "signo da alegria". Ainda no século XVI, surgiu a primeira associação da estação com o mundo do trabalho, quando legislações corporativas instituíram a jornada de trabalho de oito horas. Foi o caso da legislação de Felipe II, de Espanha, que estabeleceu este direito para os mineiros em 1573 e para os demais trabalhadores em 1593.
Celebrado anualmente em numerosos países do Mundo, o dia 1 de Maio também conhecido como o Dia do Trabalhador ou Dia Internacional dos Trabalhadores, sendo também um dia de feriado em alguns países do Mundo.
 
 

                                               

                                                                                 Deusa romana Flora proveniente de Villa Adriana
                                                                                                                    (col. priv.)


                                                 Representação das "Floralias", segundo um quadro de Prosper Piatti 1899 (col. priv.)



                                            Calendário de trabalhos agrícolas de Pietro Crescenzi, século XV
                                                                                                                (col. priv.)


                                 Pormenor de iluminura da Idade Média com trabalhadores e senhor feudal (col. priv.)
                                        


No século XIX, esta simbologia foi retomada pelo proletariado moderno, que começava a organizar-se. Antes mesmo da consagração da data, reivindicações trabalhistas inspiravam-se naquele período do ano. O movimento de padeiros irlandeses contra o trabalho noturno e o dominical no século XIX resultou nos "comícios de Maio", como os descreveu Karl Marx (1818-1883). As condições de trabalho, que eram em muitos casos de autêntica exploração, nomeadamente desde o inicio da Revolução Industrial iniciada em finais do Séc. XVIII, sendo os operários forçados a trabalhar 12, 14, 16 e mais horas por dia, num regime de brutalidades e privações, na indústria, comércio e agricultura, em ambientes sem qualquer condições para o trabalho; muitos não tinham ventilação e iluminação adequada, eram extremamente sujos, etc. . Nem crianças nem grávidas eram poupadas. O militante anarquista norte americano desse período Oscar Neebe (1850-1916), fez uma descrição do contexto da época na sua autobiografia:
“Eu trabalhava numa fábrica que fazia latas de óleo e caixas para chá. Foi o primeiro lugar em que vi crianças de 8 a 12 anos trabalharem como escravos nas máquinas. Quase todos os dias, acontecia de um dedo ser mutilado. Mas o que isso importa… Eles eram remunerados e mandados para casa, e outros tomariam seus lugares. Acredito que o trabalho infantil nas fábricas tenha feito, nos últimos vinte anos, mais vítimas do que a guerra com o sul, e que os dedos mutilados e os corpos destroçados trouxeram ouro aos monopólios e produtores.”



                                                                              Exploração do trabalho infantil e feminino em tecelagem
                                                                               no início da Revolução Industrial do séc. XIX (arq. pess.)



          
                                                                                                               Karl Marx (arq. priv.)






      Aspetos da exploração do trabalho feminino e infantil em diversos setores nos finais do sec. XIX (arq. priv.)



Mas tudo remonta ao ano de 1886 quando nos EUA se realizou uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago no dia 1 de Maio, convocada pela Federação dos Trabalhadores dos EUA, manifestação essa que tinha como objetivo reivindicar melhores condições para os trabalhadores. A exploração desmedida, sem qualquer tipo de escrúpulos, do trabalho infantil e feminino era uma fonte suplementar de lucro para empresários e capitalistas. Pretendeu-se com esta manifestação a redução das horas de trabalho para 8 horas diárias, tendo tido a participação de milhares de pessoas. Nesse mesmo dia teve início uma greve geral por todos os EUA, três dias depois houve um pequeno levantamento que acabou em escaramuças entre manifestantes e polícia, com a morte de alguns manifestantes. No dia seguinte nova manifestação é organizada com protestos pelos acontecimentos ocorridos nos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba para o meio da polícia que começava a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. Por sua vez, a polícia abriu fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Tais acontecimentos passaram a ser conhecidos como a revolta de Haymarket. O episódio desencadeou uma perseguição a líderes do movimento operário. Depois de um processo suspeito, com caráter marcadamente político, sete deles foram condenados à morte por enforcamento, um deles cometeu o suicídio antes do enforcamento e três remanescentes receberam sentenças de prisão, mais tarde em 1893 revogadas, quando o governador concluiu que todos os oito acusados eram inocentes. 



      
        Apelo ao manifesto de Haymarket em 1886 (arq. priv.)
 
                                                                         


 Acontecimentos de Haymarket no dia 1º de Maio de 1886 (arq. pess.)
                                                                           


                                                       Explosão de bomba durante a revolta de Haymarket em 1886 (arq. pess.)



                                                    Tiroteio da policia em Chicago sobre manifestantes em Maio de 1886 (arq. pess.)



                                                Confrontos na revolta de Haymarket em 1886 (arq. pess.)



Cena da execução de alguns dos chamados Mártires de Chicago (arq. pess.)
 






A 20 de Junho de 1889 o congresso operário internacional, reúne em Paris e decidiu convocar anualmente uma manifestação com o objetivo de lutar pelos direitos dos trabalhadores e as 8 horas diárias. O dia 1 de Maio foi escolhido como homenagem às lutas sindicais e aos "Mártires de Chicago". No ano de 1890 os operários americanos conseguem conquistar finalmente a jornada de trabalho das 8 horas. Em 1 de Maio de 1891 numa manifestação levada a cabo no norte da França, a polícia dispersa a manifestação resultando na morte de dez manifestantes. Este novo drama vem reforçar este dia como um dia de luta dos trabalhadores, tendo sido proclamado meses depois em Bruxelas pela Internacional Socialista como dia internacional de reivindicação de condições laborais. Passa a ser um dia de feriado em vários países como na França em 1919 e mais tarde em 1920 também na Rússia, tendo sido este exemplo seguindo por muitos outros países, principalmente após a II Guerra Mundial.
 


                                                                           Gravura de Walter Crane de 1894 em solidariedade
                                                           aos anarquistas de Chicago, executados após a Revolta de Haymarket 
   (col. priv.)     
 



                                                              Luta dos trabalhadores pelas 8 horas diária de trabalho (arq. priv.)



Cartaz da Rússia, alusivo ao dia 1 de Maio de 1919 (col. priv.)
                      
 


Rapidamente as comemorações do 1º de Maio chegaram a Portugal e os trabalhadores portugueses assinalaram-no logo em 1890, o primeiro ano da sua realização internacional. Mas neste dia os trabalhadores limitavam-se inicialmente a comemorar com alguns piqueniques de confraternização, com discursos pelo meio alusivos ao dia e algumas romagens aos cemitérios em homenagem aos operários e ativistas caídos na luta pelos seus direitos laborais. Os operários portugueses sempre comemoraram ativamente este dia com a solidariedade internacionalista, reclamando junto do patronato e das autoridades portuguesas o estabelecimento das 8 horas de trabalho diário e a melhoria das suas condições de vida e de trabalho.



               
         
                                                                     Capa da revista A Parodia de 1900  alusiva ao 1º de Maio (col. pess.)
                                                                                 
 


          
                                       
          
                    Comemorações do 1º de Maio de 1904 na Praça José Fontana em Lisboa (arq. pess.)
 

     Concentração de trabalhadores portugueses em Santos-Lisboa em 1910 exigindo os seus direitos (arq. priv.)



                                                                           Manifestação do 1º de Maio de 1913 no Porto (arq. priv.)



Em 1919, após algumas das mais gloriosas lutas do sindicalismo e dos trabalhadores portugueses, foi finalmente conquistada a lei das 8 horas de trabalho para os trabalhadores do comércio e da indústria. Durante o período do Estado Novo apesar das proibições e repressão houve por diversas vezes manifestações de trabalhadores de diversas áreas. Como marco na história do operariado português ficaram as revoltas dos assalariados agrícolas dos campos do Alentejo no 1º de Maio de 1962, que até então trabalhavam de sol a sol.
Só a partir do ano da revolução do 25 de Abril de 1974, 6 dias após a manhã da liberdade, há 41 anos precisamente, é que se volta a comemorar livremente o dia 1º de Maio, organizado pela Intersindical criada em 1970 e este dia passou a ser feriado nacional. Neste dia há 41 anos, fizeram-se as maiores comemorações do dia 1º de Maio que há memória em liberdade e na nova democracia que estava a nascer. Era a consagração popular do dia 25 de Abril. Cerca de 500 a 600 mil pessoas nas ruas de Lisboa, talvez um milhão em todo o País (numa população de nove milhões), sem um único incidente a registar. Conseguem-se a partir daí profundas transformações económicas e sociais, conquistam-se liberdades e direitos fundamentais, melhorias nas condições de vida e de trabalho dos operários e suas famílias.


 
        

                                                                                                                       Assalariadas agrícolas no Alentejo na década de 60 (arq. priv.)





                                                               Comemorando com cravos um Portugal livre em 1974 (arq. priv.)



    
                                                           Imagens do 1º de Maio de 1974 em Lisboa, comemorado em liberdade
                                                                                                               (arq. priv.)



                                                     Comemorações do primeiro 1º de Maio no Barreiro em 1974 (arq. priv.)


              
                                                 Imagem da manifestação do 1º de Maio de 1974 na Alameda em Lisboa (arq. priv.)

 

                                                    Capa da revista O Século Ilustrado alusiva ao primeiro 1º de Maio livre de 1974
                                                                                                              (col. pess.)



                                                                                   Página do jornal Diário de Noticias de 1974
                                                                                              alusivo ao 1º de Maio (arq. priv.)




Este dia 1º de Maio, é comemorado por todo o País com manifestações, comícios e festas de caráter reivindicativo promovidas pelas centrais sindicais CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses), Confederação fundada a 1 de Outubro de 1970 em Lisboa e UGT ( União Geral dos Trabalhadores), Central Sindical fundada a 28 de Outubro de 1978 em Lisboa. Nalgumas zonas do país organizam-se festas e piqueniques. As comemorações do 1º de Maio, em honra dos "Mártires de Chicago" e da luta de gerações e gerações de revolucionários, muitos deles sacrificando as suas vidas contra a exploração capitalista, constituem uma imponente jornada internacionalista de unidade e de luta por uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, sem exploradores nem explorados. De salientar, que no calendário litúrgico se celebra neste dia a memória de S. José Operário, por se tratar do santo padroeiro dos trabalhadores.

         


                                             Manifestação do dia 1º de Maio em Lisboa em 2012 (arq. priv.)
 

                                                                            Manifestantes desfilando no 1º de Maio (arq. priv.)
                                                         
        
                                                             


                                                                       Manifestação do 1º de Maio no Porto em 2013 (arq. priv.)
                     

 

   
                                     Comemorações do 1º de Maio de 2014 em Lisboa, foto Nuno Ferreira Santos (arq. PUBLICO)


                                                        Comemorações do 1º de Maio de 2014 junto à Alameda em Lisboa (arq. LUSA)


    

                                                           S. José Operário, padroeiro dos trabalhadores
                                                                                                             (col. pess.)











Texto:
Paulo Nogueira


Fontes e bibliografia:

LIMA, Sebastião de Magalhães, O primeiro de Maio, Casa Bertrand-José Bastos, Chiado Lisboa, 1894
DEL ROIO, José Luiz. O 1º de Maio, Cem Anos de Luta. 1886-1986. São Paulo: Global, 1986
Organizado pelo Centro de Memória sindical
DOMANGET, Maurice. Historia del Primero de Mayo. Buenos Aires: Editorial América, 1956
THOMAS, Michael, May Day in the USA: A Forgotten History. Oscar Neebe. Autobiography