sábado, 11 de junho de 2016

RAFAEL BORDALO PINHEIRO


Da caricatura à cerâmica...






De seu nome Raphael Augusto Prostes Bordallo Pinheiro (Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro), nasceu no nº 47 da Rua da Fé, em Lisboa, a 21 de março de 1846, terceiro filho de doze irmãos, a quem se seguiria o célebre retratista Columbano Bordallo Pinheiro (1857-1929). Foram seus pais o pintor, escultor e gravador romântico Manuel Maria Bordallo Pinheiro (1815-1880) e D. Maria Augusta do Ó Carvalho Prostes. Desde muito cedo Rafael Bordalo Pinheiro ganhou gosto pelas artes. Com nove anos, ingressou no Liceu Central das Merceeiras e, quatro anos após, na Academia Real das Belas Artes de Lisboa, onde virá a frequentar classes de Desenho até 1871 e das qual fazia a parte as disciplinas de desenho de arquitetura civil, desenho antigo e modelo vivo. Entretanto, em 1865, matriculou-se ainda no Curso Superior de Letras, quando já tinha tido também, com apenas catorze anos, o seu primeiro contato com o palco, ao integrar o elenco de uma peça que sobe à cena no Teatro Garrett e no Theatro Thalia do palácio do conde de Farrobo (teatro anexo ao palácio da Quinta das Laranjeiras em Lisboa). Este interesse que muito cedo despertara e o acompanhará por toda a vida certamente, motiva-o a inscrever-se, por essa época, no Curso de Arte Dramática do Conservatório de Lisboa. Todavia, não chega a concluir os estudos em qualquer destas áreas, pois o cumprimento disciplinado dos programas escolares escapa ao seu temperamento irrequieto, sendo um apaixonado pelo lado boémio da vida lisboeta. Em 1863, dá início à vida profissional como amanuense da secretaria da Câmara dos Pares, cargo esse conseguido por seu pai, ocupação que dificilmente conviria ao seu caráter, mas que parece manter até 1875 onde acabou por descobrir a sua verdadeira vocação, motivado pelas intrigas políticas dos bastidores. Data de 15 de setembro de 1866 o casamento de Rafael Bordalo Pinheiro com D. Elvira Ferreira de Almeida, enlace romanesco apadrinhado por Júlio César Machado (1835-1890), que se realiza contra a vontade da família da noiva, tendo nascido desse casamento, logo no ano seguinte, o seu filho Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro (1867-1920). Do tempo então passado na Quinta da Broa, na Golegã, resultam apontamentos a desenho e aguarela naturalistas, que fixam a paisagem e os costumes da região.


 
Casa onde nasceu Rafael Bordalo Pinheiro na rua da Fé em Lisboa,
foto Eduardo Portugal (arq. AFML)
 


Rafael Bordalo Pinheiro quando
jovem (arq. priv.)
 
 
 
 Fachada do teatro Thalia junto ao palácio da Quinta das Laranjeiras
                                                                            onde Rafael Bordalo Pinheiro trabalhou (arq. AML)

 
    
 
       Praça do Comércio em 1868, a Lisboa da juventude de Rafael Bordalo Pinheiro, foto Francisco Rocchini
(arq. BNP)
 
 
 
Foto de família com Rafael Bordalo Pinheiro,
esposa e filhos em 1879
 (col. Museu Rafael Bordalo Pinheiro)
 
 
 
Quinta da Broa na Golegã onde Rafael Bordalo Pinheiro passa os primeiros tempos de casado (arq. priv.)



                                      Desenho ilustrativo de costumes da Golegã por Rafael Bordalo Pinheiro em 1869 (col. pess.)




Começou por tentar ganhar a vida como artista plástico com composições temáticas realistas. Estreia-se nos salões da Sociedade Promotora das Belas Artes em Portugal, em 1868, no qual seu pai também figura, não passando despercebidos os seus oito trabalhos a aguarela que apresenta de tipos populares da capital e do Ribatejo com os seus trajes vistosos, como a "Vendedeira de Queijos", o "Vendedor de Fósforos", "Vendeiras de Sardinhas" ou o "Vendedor de Palitos e Rocas". Na exposição de 1870, denunciam-se já os seus predicados de fino observador e a intuição do caricaturista, em obras intituladas "O Espirra-Canivetes", "Os Jogadores de Gamão" ou a série de "O Homem que ri". Até 1874, Rafael mantém uma presença assídua nos certames da Promotora, com cenas de costumes, algumas notadas pelo seu realismo como exemplo se destaca "O Tocador de Guitarra", em aguarela sobre papel. Contudo, a carreira artística de Rafael Bordalo Pinheiro encontraria outras vias de desenvolvimento, passando ainda pelo jornalismo, a ilustração e a decoração, precursor do cartaz artístico em Portugal, tendo produzido dezenas de litografias, dedicar-se-ia ainda à ilustração de menus para banquetes. Como exemplo, cite-se o livro de Júlio César Machado, Os Theatros de Lisboa"(1875), que é documentado com perto de 250 belos desenhos de Rafael Bordalo Pinheiro. De notar que, entre 1873 e 1875, colabora como ilustrador nos periódicos estrangeiros La Ilustracion de Madrid, La Ilustracion Española y Americana"(1873), El Mundo Cómico (1873-74), El Bazar e em várias revistas francesas como L’Univers Illustré e revistas inglesas, além do prestigiado The Illustrated London News, que lhe dirige convites de trabalho em Londres, que Bordalo não aceita.
Mas será com a caricatura artística que o génio de Rafael Bordalo Pinheiro deixará uma marca indelével e inconfundível no século XIX português. O seu lápis traduz no quotidiano a perspicaz e oportuna observação do humor bordaliano, que caracteriza a política do país escalpelizando os seus ícones, cria símbolos das realidades nacionais, dos quais o Zé Povinho se ergue como a imagem dum povo explorado e sofredor, mas conformado com a sorte que lhe cabe. Rafael Bordalo Pinheiro perfila-se como o crítico, mas também como o lutador em defesa dos valores e da dignidade de Portugal. Em 1870, o sucesso obtido por uma caricatura alusiva à peça em cena intitulada O Dente da Baronesa, folha de propaganda a uma comédia em 3 atos de Teixeira de Vasconcelos, revelará um talento e irá despoletar uma paixão para a cena do humorismo gráfico. Esse ano viu surgir sucessivamente o espirituoso álbum de caricaturas em três publicações; O Calcanhar d’Aquiles, a folha humorística A Berlinda, da qual saem sete números, e O Binóculo, periódico semanal à venda apenas nos teatros, com quatro números publicados. Desenvolveu a sequência narrativa figurada, precursora da banda desenhada em Portugal, e em 1872 edita o álbum intitulado Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do imperador de Rasilb pela Europa, que relata as peripécias do soberano Rasilb (anagrama de Brasil), em visita à Europa. Deu ainda à estampa o Mapa de Portugal, cujo êxito foi assinalado por vendas superiores a 4000 exemplares, no espaço de um mês. Seguiu-se o MJ ou a História Tétrica de uma Empresa Lírica, em 1873. O momento mais alto e mais sentido será, sem dúvida, o da crise do Ultimatum britânico de 1890, que motiva inúmeras páginas patrióticas e a personificação da Inglaterra na figura anafada e arrogante de John Bull.

 
 
Rafael Bordalo Pinheiro
em 1876 (arq. priv.)
 
 

                Cena popular ribeirinha com vendedeiras de sardinhas, aguarela sobre papel de 1868 por Rafael Bordalo Pinheiro
(col. Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa)
                                                            


O Tocador de Guitarra, aguarela sobre papel de 1874 por Rafael Bordalo Pinheiro
 (col. priv.)



                                                                                 Menu ilustrado por Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                         (col. Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa)




                                           Algumas da publicações estrangeiras onde Rafael Bordalo Pinheiro colaborou  (col. priv.)




 

                                                                                          




                                                             Publicação Os Theatros de Lisboa (1875), com 250 belas ilustrações
                                                                                       de Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)
                                                                                                           



                                                                         Caricatura de Rafael Bordalo Pinheiro na sua mesa de trabalho 
                                                                                                                                     (col. priv.)



Ilustração da figura do Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro
        (col. pess.)


 
                                               Pagina da publicação A Berlinda de 1870, com ilustrações de Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                                               (col. priv.)



                                                                   Página de publicação O Binoculo nº 01 de 29 de Out. de 1870
                                                                                          (col. Museu Rafael Bordalo Pinheiro)

 



                                                 Capa e página da publicação Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa,
                                                          in apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro de 1872 1ª edição (col. pess.)

 


                                              Cartaz artístico de 1881 da peça teatral Calderon da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                                              (col. priv.)

 
 
                                                          Cartaz artístico de 1884 da peça teatral de Fantoches de Madame Diabo 
                                                                              da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)





 Caricatura sarcástica alusiva a John Bull e ao Ultimatum inglês contra Portugal,
                                                                                     por Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)
 
 

Rafael Bordalo Pinheiro entre os anos de 1869 e 1879
 in Illustração Portugueza de 1902 (col. priv.)
 


 
 
Data de 1875 a iniciativa então de maior alcance, com a criação do primeiro jornal dedicado à crítica social, A Lanterna Mágica. São companheiros de Bordalo neste empreendimento Guilherme de Azevedo (1840-1882) e Guerra Junqueiro (1850-1923), um projeto que faz a crónica dos factos sociais, enquanto tece a crítica às políticas e às instituições. Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo, que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica. Na sua figura bem popular, o Zé Povinho, conseguiu projetar a imagem do povo português de uma forma simples mas ao mesmo tempo fabulosa, atribuindo um rosto ao país. O mesmo Zé Povinho que continua a ser retratado até aos nossos dias por vários caricaturistas para assim revelar de forma humorística os poderes da sociedade. Definia-se o vasto campo da atuação de Rafael Bordalo Pinheiro, não só de expressão artística e de vivacidade de espírito crítico, mas de intervenção cívica e patriótica. Surgindo nessa época uma proposta de colaboração no jornal brasileiro de humor O Mosquito, no verão de 1875, parte para o Rio de Janeiro, onde viverá quatro anos, apesar de uma difícil adaptação ao meio, saudades da sua pátria e duas tentativas de assassínio. A sua permanência no Brasil fica ainda assinalada pela criação de duas revistas de caricaturas, o Psit!!! (1877) e O Besouro (1878-79). É a oportunidade para nascerem do seu lápis novas personagens-tipo da sociedade carioca, tais como o Psit!, o Arola ou o Fagundes. Em Lisboa, publicava-se o Album de Caricaturas: Frases e Anexins da Língua Portuguesa (1876), ilustrado com desenhos de Bordalo. Logo após o seu regresso a Portugal, em agosto de 1879, deu início à publicação da primeira série de O Antonio Maria, cujo título alude a António Maria Fontes Pereira de Melo, figura política dominante que presidira ao Ministério. Até janeiro de 1885, nas páginas desta revista onde também colaborou Guilherme de Azevedo, conjuga-se um combate de ideias que visa os partidos no exercício do poder e as debilitadas instituições da monarquia. Rafael Bordalo Pinheiro publica em 1881 a obra intitulada No Lazareto de Lisboa, trata-se de um álbum auto - satírico, onde o autor ensaia uma espécie de banda desenhada autobiográfica sobre a sua experiência traumática no famoso Lazareto de Lisboa (local de quarentenas na margem sul do Tejo em Porto Brandão destinado a viajantes que entravam em Lisboa por via marítima suspeitos de doenças contagiosas), aquando o seu regresso do Brasil onde fica de quarentena.  Em simultâneo, vão saindo as folhas do Album das Glorias, a primeira edição a partir de 1880, com 42 caricaturas de personalidades e instituições portuguesas, comentadas por literatos contemporâneos. Esta publicação manteve-se até 1883. Na sua globalidade, estas obras, a que ainda acrescem edições do Almanach do Antonio Maria de 1882 a 1884, constituem o cerne da obra gráfica de Rafael Bordalo Pinheiro, o apogeu do criador e um momento ímpar na cultura portuguesa.
 
 
 
 
                                                  Rafael Bordalo Pinheiro em meados de 1880 (arq. pess.)
 
 
 

Capa da primeira publicação da  Lanterna Magica de 15 de maio de 1875
 (col. Museu Rafael Bordalo Pinheiro)



Capa da segunda publicação da Lanterna Magica de 22 de maio de 1875
(col. priv.)



                                         Alusão à figura do Zé Povinho na publicação Lanterna Magica (col. priv.)
 



O Rio de Janeiro em 1875 que Rafael Bordalo Pinheiro conheceu, albumina/prata (col. Instituto Moreira Salles)
      


                                      Rafael Bordalo Pinheiro num grupo de amigos aquando a sua estadia no Brasil em 1875
                                                                                     in Illustração Portugueza de 1902 (col. priv.)



                                                       Capa da publicação brasileira O Mosquito de 6 de janeiro de 1876 (col. priv.)


      

                               
                                                    Páginas da publicação O Mosquito mostrando o impacto de Rafael Bordalo Pinheiro
                                                             aquando da sua chegada ao Brasil em 11 de setembro de 1875 (col. priv.)



Capa da primeira publicação brasileira do Psit!!! de 15 de setembro de 1877
                                                                                                            (col. priv.)
                       


Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro na publicação O Besouro nº 2 de 1878
(arq. BNP)
 
  
 
 
Contra capa da publicação Album de Caricaturas  Phrases e Anexins da Lingua Portugueza de 1876 (col. priv.)




Ilustrações da publicação Album de Caricaturas  Phrases e Anexins da Lingua Portugueza de 1876 (col. priv.)





Algumas caricaturas da publicação Album de Caricaturas  Phrases e Anexins da Lingua Portugueza de 1876
 por Rafael Bordalo Pinheiro (col. pess.)


 
 
Capa da coleção da publicação de O Antonio Maria I série (col. priv.)



Página da primeira publicação do jornal de humor político O Antonio Maria
 I série  de 12 de junho de 1879 (col. priv.)



Ilustração alusiva a Ramalho Ortigão por Rafael Bordalo Pinheiro na publicação
O Antonio Maria de  3 de julho de 1879 (col. priv.)
 
 

Rosa Araújo e a Avenida da Liberdade por Rafael Bordalo Pinheiro na publicação
O Antonio Maria de 28 de agosto de 1879 (col. priv.)
 
 
 
Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro alusivo ao sufrágio e ao Zé Povinho
na publicação o Antonio Maria de 19 de dezembro de  1879 (col. priv.)
 
 
 
Ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro publicada na revista O Antonio Maria,
número 86, ano III, de 20 de Janeiro de 1881 (col. priv.)
 
 
 
Ilustração da publicação O Antonio Maria  nº 154 de Maio 1882 alusiva ao Marquês Pombal (col. priv.)
 
 
 
Ilustração de página da publicação O Antonio Maria de 1883
alusiva ao Kiosque Bordalo (col. priv.)
 
 
 
Página da revista O Antonio Maria de 3 de janeiro de 1885 (col. priv.)
 
 
 
 
Ilustração alusiva à questão inglesa da publicação O Antonio Maria de 5 de março de 1891 (col. priv.)
 
 
 
Página da publicação O Antonio Maria com ilustração de Rafael Bordalo Pinheiro,  A Politica
de 1892 (col. priv.)
 
 

Gravura alusiva ao Zé Povinho em o dia de reis na publicação O Antonio Maria
 por Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)





   
                
                                                                         Capa e paginas da publicação No Lazareto de Lisboa de 1881
                                                                                                       por Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                                 (arq. Biblioteca Nacional de Portugal)
                              
 



                                   Ilustrações de No Lazareto de Lisboa, representando o Joaquim dos Melões e o quarto, de 1881
                                                              por Rafael Bordalo Pinheiro (arq. Biblioteca Nacional de Portugal)



 Capa da publicação Album das Glorias por Rafael Bordalo Pinheiro de 1880 a 1883
(col. priv.)


                                       Página de abertura da publicação Album das Glorias, 1880 a 1883 (col. priv.)




             






       
            Algumas das figuras e tipos públicos da época em caricatura por Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                      in Album das Glorias, 1880 a 1883 (col. priv.)
                                               



  Capa da publicação Almanach do Antonio Maria para 1882
(arq. Biblioteca Nacional de Portugal)
 
 
Ilustração da publicação Almanach do Antonio Maria de 1882 (col. priv.)
                                     



Capa da publicação Almanach do Antonio Maria para 1883-84 (col. priv.)
 
 
 
Ilustração da publicação Almanach do Antonio Maria, 1883-84 (col. priv.)
                                   


Rafael Bordalo Pinheiro entre os anos de 1862 e 1881
                                                                                  in Illustração Portugueza de 1902 (col. priv.)
                                                                  



 Foto de Rafael Bordalo Pinheiro publicada no Almanach do Antonio Maria, 1883-84
                                                                                                           (col. priv.)

                                                

É por esta época que Rafael Bordalo Pinheiro integra o chamado "Grupo do Leão" (1881-89), importante formação livre apoiada por Alberto de Oliveira (1861-1922), que reúne artistas, escritores, intelectuais em torno de Silva Porto (1850-1893) e inclui os pintores José Malhoa (1855-1933), António Ramalho (1859-1916), João Vaz (1859-1931), Moura Girão (1840-1916), Henrique Pinto (1853-1912), Ribeiro Cristino (1858-1948), Rodrigues Vieira (1856-1898), Cipriano Martins e ainda Columbano, que pinta o célebre retrato de grupo (1885) onde figuram estes protagonistas à mesa do Leão d’Ouro, acompanhados por Manuel Fidalgo e outro dos criados daquela cervejaria lisboeta. Também Rafael caricatura os mesmos na "Alegoria ao Grupo do Leão", óleo a simular azulejo em que cada artista surge com os atributos do seu género de pintura. De 1885 a 1891, publica o Pontos nos ii, revista com idêntica intenção e semelhante na postura de defesa das causas portuguesas e de denúncia clara das manobras políticas, em que assumem particular relevo a "Questão com a Inglaterra", o "Monopólio dos Tabacos", o "Ultimatum inglês" e a "Revolta do Porto de 31 de janeiro". É na sequência das empenhadas páginas dedicadas a este último acontecimento que o jornal é encerrado pelo Governo Civil de Lisboa, logo após o número de 5 de fevereiro de 1891. Será a oportunidade para o rápido reaparecimento numa segunda série de O António Maria, que perdurará até 1899. Em 1900, dá lugar  à  A Parodia, vendida ao preço de 20 réis cada exemplar, o primeiro número desta publicação sai a 17 de janeiro de 1900. Publicação esta que atesta o desencanto de Rafael Bordalo Pinheiro face à vida política do País, substituindo-a cada vez mais pelo comentário do seu desenho aos eventos e às personalidades do meio artístico lisboeta, e dando espaço à colaboração do filho Manuel Gustavo. No entanto, ou por isso mesmo, é nas capas dos primeiros números desta revista que caricatura os variados aspetos da realidade socioeconómica, de forma tão certeira que a sua aplicação continua a ser lembrada com acuidade, seja "A Política: a Grande Porca", "A Finança: o Grande Cão", "A Economia: a Galinha Choca", "A Retórica Parlamentar: o Grande Papagaio", "O Progresso Nacional: o Grande Caranguejo", "A Burocracia: a Grande Rata", "A Beneficencia: o Grande Kagado" e "A Instrução Pública: a Grande Burra". De referir que A Parodia é a última publicação criada por Rafael Bordalo Pinheiro, dando seguimento às restantes publicações o seu filho Manuel Gustavo. Ao longo do tempo, a seu lado, nos periódicos, estiveram Guerra Junqueiro, Guilherme de Azevedo, Ramalho Ortigão, Marcelino Mesquite, João Chagas entre muitos outros.


 Grupo do Leão, a que pertenceu Rafael Bordalo Pinheiro, por Columbano Bordalo Pinheiro, 1885
                                                                                            (col. Museu do Chiado, Lisboa)

                          

   Sala da celebre cervejaria Leão d'Ouro por J. Ribeiro Cristiano in O Occidente de 1 de maio de 1885 (col. pess.)




                                             Capa da coleção da publicação Pontos nos ii de 1885 (col.priv.)



                                                Página da publicação Pontos nos ii de 7 de maio de 1885
                                                                                      (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)




                      Página da publicação Pontos nos ii de 21 de maio de 1885
                                                   (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



                              Pagina da publicação Pontos nos ii alusiva ao pavilhão de Portugal na Exposição de Paris de 1889
                                                                          da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)




                                                         
                                                       Caricatura de John Bull relativa ao Ultimatum inglês e a partilha da África,
                                                                                da publicação Pontos nos ii de 1890 (arq. priv.)



                                                                    Página da publicação Pontos nos ii de 3 de janeiro de 1891
                                                                                       (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



                                          Página da publicação O Antonio Maria II série de 5 de março de 1891
                                                                                          (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



                                          Ilustração alusiva à questão inglesa da publicação O Antonio Maria de 5 de março de 1891
                                                                                                               (col. priv.)



                                                            Página da publicação O Antonio Maria II série de 8 de janeiro de 1892
                                                                                        (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



                                                            Página da publicação O Antonio Maria II série de  6 de janeiro de 1898
                                                                                         (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)




                                                    Capa da coleção da publicação A Parodia de 1900
                                                                                        (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



                                                                Capa da primeira publicação A Parodia de 17 de janeiro de 1900
                                                                                       (arq. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



                                            Páginas da primeira publicação A Parodia de 17 de janeiro de 1900 (col. priv.)



                                             Ilustração da revista A Paródia de 1900 (col. Hemeroteca Municipal de Lisboa)



Página da publicação A Paródia de 1900 (col. Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa)
   


Página da publicação A Parodia de 22 de agosto de 1900 (col. pess.)



                         Páginas com ilustrações alusivas aos carros elétricos da publicação A Parodia de 1902 (col. priv.)



                                   As duas soberanias, por Rafael Bordalo Pinheiro in A Parodia de 1902 (col. pess.)



                                              Ilustração da publicação A Parodia nº 22 de 1903 (arq. priv.)




                           Autocaricatura de Rafael Bordalo Pinheiro, intitulada vinte annos depois
                                                                                                in A Parodia de 1903 (col. priv.)
                                                          



                                                   Ilustração da publicação A Parodia de 1905 (col. priv.)

 

 
 














 

 
                          Caricaturas satíricas dos variados aspetos da realidade socioeconómica portuguesa da época
                                                           criadas por Rafael Bordalo Pinheiro na publicação A Parodia (col. priv.)

 

                      
Rafael Bordalo Pinheiro e seus colaboradores de 1882 a 1884 (arq. pess.)
         


 
A criação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha sob a direção artística de Rafael Bordalo Pinheiro que aceitou chefiar esse setor, e a sua instalação na vila, em 1884, contribui decisivamente para a revitalização da ancestral cerâmica local, quer pela revolução das formas, quer pela gramática decorativa de raiz francamente naturalista e tantas vezes duma exuberância que desafia a realidade.
A fábrica nasceu de um projeto do próprio Rafael Bordalo Pinheiro com o apoio do seu amigo Ramalho Ortigão (1836 - 1915), da sua irmã Maria Augusta e do seu irmão Feliciano Bordalo Pinheiro (1847 - 1905). Esta ideia surge no decorrer de 1884, após os dois irmãos terem realizado viagens de estudo e trabalho a indústrias de cerâmica em Inglaterra, França e Bélgica. O terreno para a instalação do complexo fabril, com 80.000 metros quadrados, foi adquirido à época por dois contos de réis. Nele existiam duas nascentes de água e dois barreiros, matérias-primas essenciais para o projetado fabrico de telhas, tijolos e louça artística. A escritura de constituição da fábrica, como sociedade anónima de responsabilidade limitada, foi assinada a 30 de junho de 1884. A direção foi entregue pelos acionistas fundadores a dois diretores, Rafael Bordalo Pinheiro, responsável pelos aspetos técnico-artísticos e seu irmão Feliciano Bordalo Pinheiro, responsável pelos aspetos organizativos. Foi o próprio Rafael Bordalo Pinheiro que de imediato se encarregou da conceção arquitetónica das instalações. Como resultado, foi erguido um pavilhão de dois andares com dois corpos laterais de pavimentos térreos, destinados a aulas e depósito de louça, envolvido por um parque ajardinado e arborizado, e um grande edifício de um só pavimento onde estavam instaladas as máquinas do mais recente da época como uma máquina elétrica de Fauce de Limoges para depurar a massa e uma máquina a vapor de 25 cavalos de força com caldeira tubular de Danayer. Incluía ainda este pavilhão as oficinas, para além de três fornos. O conjunto dispunha ainda um grande pavilhão para venda e armazenamento dos produtos acabados. O objetivo social da empresa era o de "explorar a indústria cerâmica no ramo especial das faianças", e propunha-se a lançar no mercado, além de produtos de cerâmica ornamental e de revestimento, e louça do tipo que então se cultivava nas Caldas: "objectos da mais fina faiança estampados com gravuras originais para usos ordinários, e louça ordinária para os usos das classes menos abastadas".
Com o inicio da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, a oportunidade de passar à argila a caricatura e o humor das revistas, entre muitos outros motivos criando os bonecos de movimento, como o Zé Povinho, a Velha Maria, a Mamuda Ama das Caldas, o Cura, o Sacristão, o Polícia entre muitos outros. Rapidamente as peças ai produzidas adquiriram um cunho original. Vasos, jarras, bilhas, pratos e outras peças demonstraram um labor tão frenético e criativo quanto barroco e decorativo. Mas Rafael Bordalo Pinheiro não se restringiu só à fabricação de loiça ornamental, para além de ter desenhado uma originalíssima baixela em prata, da qual se destaca um faqueiro para o 3º visconde de São João da Pesqueira, satisfez dezenas de pequenas encomendas para a decoração de palacetes como o palácio do Beau Séjour em Benfica, com painéis de azulejos, frisos, bustos, floreiras, centros de mesa, molduras, alfinetes, perfumadores, candeeiros, etc., inspirados no estilo Manuelino e na Arte Nova muito em voga nesta época. Por outro lado, executou cerca de 60 figuras da Paixão de Cristo (1887-99) para as Capelas do Buçaco, esculturas em terracota á escala humana de grande animismo, individualidade e movimento, uma encomenda do Governo português de então, para 86 figuras, que não foi concluída, e se pode apreciar no Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. De referir que este conjunto escultórico foi restaurado em 2014 com o apoio mecenático  da Fundação Millennium BCP. Mas não só a faiança das Caldas deve a Bordalo Pinheiro o desbravar de caminhos, também a arte do barro portuguesa em geral colhe benéfico fruto da ação e da inspiração desse notável vulto da cultura portuguesa. Embora financeiramente a fábrica de cerâmica se tenha revelado um fracasso, a genialidade deste trabalho notável teve expressão nos prémios conquistados. Rafael Bordalo Pinheiro dirige ainda parte da construção do Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris de 1889, nomeadamente na decoração das salas, empreendimento grandioso que reúne e valoriza os produtos nacionais, alcançando aí a cerâmica das Caldas da Rainha notável sucesso e sendo o artista galardoado com uma medalha de ouro. Em 1892, em colaboração com Ramalho Ortigão, realiza outro importante projeto internacional, a decoração da secção portuguesa da Exposição Colombiana de Madrid, segundo programa de motivos náuticos de grande visibilidade, onde ganha uma medalha de ouro. Outros prémios em exposições se seguiram, como a medalha de ouro em Antuérpia (1894), novamente em Madrid (1895), em Paris (1900) e em St, Louis nos EUA (1904). Em 1908 Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro, prosseguindo o trabalho do pai, funda a Fábrica de San Rafael, assumindo a sua direção e a partir de 1922  muda de designação para Fábrica de Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro.

Até aos dias de hoje, apesar de algumas crises, a Fábrica de Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro e desde há mais de um século, continua responsável pela conceção de uma galeria de peças de cerâmicas utilitárias e decorativas, que se constituíram como referência artística a nível mundial. Continuando a empregar grande parte das técnicas centenárias na produção dos moldes, esta fábrica prossegue a recuperação de um legado insubstituível. No entanto e durante o século XX, diversas fábricas de cerâmica surgiram na região das Caldas da Rainha reproduzindo também peças de inspiração bordaliana.




                                                Rafael Bordalo Pinheiro numa foto cómica da época (col. priv.)


 
Desenho a aguarela com um esboço do edifício principal da fábrica e atelier de faianças das Caldas da Rainha
 por Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)
    
 
 
                                            Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha in revista O Occidente, novembro de 1887
                                                                                                               (col. pess.)
 
 

Titulo da 1ª ação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha de 1884
                                                                                                              (col. priv.)
 

 

Aspetos da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha em finais do séc. XIX (arq. priv.)

 

Maquinaria da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha em finais do séc. XIX (arq. priv.)



Postal do início do séc. XX e fornos da Fábrica de Faianças as Caldas da Rainha (col. pess.)
 
          


Parte das  60 figuras da Paixão de Cristo executadas entre 1887-99 para as Capelas do Buçaco,
esculturas em terracota por Rafael Bordalo Pinheiro
(col. Museu José Malhoa, Caldas da Rainha)




 Souvenir em gesso do pavilhão de Portugal na Grande Exposição de Paris de 1889
                                                               no qual Rafael Bordalo Pinheiro participou no projeto (col. priv.)
                               



As famosas figuras com movimento em cerâmica criadas por Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)



Peça caricatural representando John Bull de 1890 da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
(col. Museu da Cerâmica)
 



Atelier da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha no início do séc. XX (arq. priv.)
     



                                                  Jarra com rãs de 1893, peça de inspiração Arte Nova por Rafael Bordalo Pinheiro 
                                                           da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (col. Museu da Cerâmica)




                                                 Candelabro renascentista em faiança artística de 1894 por Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                                                (col. priv.)




                                               Prato com lagosta e folha de couve num cesto, faiança Bordalo Pinheiro de 1894 
                                                                                     (col. Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa)



Cinzeiro com figura Ó Viva da Costa em cerâmica Bordalo Pinheiro de 1896
(col. Museu Bordalo Pinheiro)



Anúncio alusivo à Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha de 1896
                                                                                                               (col. priv.)
                 



Bule tipo caricatural e marca de fabrico, peça moldada e modelada,
                                                                                       1897-1906 de Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha 
                                                                                                  (col. Museu da Cerâmica)






Penico representando John Bull, de 1897 por Rafael Bordalo Pinheiro
da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
(col. priv.)
                              



                                                                               Azulejo da autoria de Rafael bordalo Pinheira
                                                                                       (col. Jardim Joaquim Bordalo Pinheiro)



                                             Azulejos da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro com motivos típicos do estilo Arte Nova
                                                                                              do início do séc. XX (col. priv.)
                                                                                                                  



                                             Rafael Bordalo Pinheiro trabalhando numa peça de cerâmica (arq. priv.)



Candeeiro de teto a gás em cerâmica da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro
(col. Palácio Beau Séjour, Benfica, Lisboa)



                             As famosas andorinhas em cerâmica da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro (col. priv.)

 

 
Prato com pêssegos em faiança e marca de fabrico da Fábrica de Faianças
das Caldas da Rainha de 1900
 (col. priv.)
 
 

 
 
 
 
 
Postal do início do séc. XX mostrando o exterior da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha (col. pess.)
 
 
 
 
Aspeto do pavilhão de vendas da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha no início do séc. XX (arq. priv.)
 


Caixa Toma, alusiva ao Zé Povinho, em  faiança artística Bordalo Pinheiro de 1904
(col. Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa)




                                                                            Caneca em faiança artística das Caldas da Rainha 
                                                                                                  (col. Casa dos Centenários)

 
Jarro utilitário em faiança artística das Caldas da Rainha (col. Casa dos Centenários)
 



Azulejos da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha por Rafael Bordalo Pinheiro do início do séc. XX
(col. priv.)

 


    Peças em faiança artística criadas por Rafael Bordalo Pinheiro e fabricadas na Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha
de final do séc. XIX e início do sec. XX (col. priv.)
 
    
    
 
 
Placa em cerâmica alusiva à Fábrica de Faianças Artisticas Bordalo Pinheiro Lda.
(col. Museu Bordalo Pinheiro, Lisboa)
 
 
 
Postal mostrando a oficina da antiga Fábrica de Faianças Artisticas das Caldas da Rainha do início do séc. XX
(col. pess.)
 
    

    Postal ilustrado do início do séc. XX mostrando a sala de exposição da Fábrica de Faianças Artisticas das Caldas da Rainha (col. pess.)
 
 
 
 
Publicidade da Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro do início do séc. XX
(col. priv.)
 
 
 

Fachada do edifício da Fábrica de Faianças Artisticas Bordallo Pinheiro nas Caldas da Rainha na atualidade
(arq. priv.)
 
  
 

    Exposição de venda de peças artísticas atuais em cerâmica da Fábrica de Faianças Artisticas Bordallo Pinheiro (arq. priv.)
 


 
 Peças em faiança da Fábrica de Faianças Artisticas  Bordallo Pinheiro
fabricadas e comercializadas na atualidade
 (foto do fabricante)
  
 
 
 
Pequena terrina em faiança artística forma de couve estilo Bordalo Pinheiro de fabrico da concorrência
(col. RD)
 
 
 
Azeitoneira em forma de folha de couve em faiança e marca de fabrico,
                                                                        ao estilo Bordalo Pinheiro de fabrico da concorrência 
                                                                                                            (col. pess.)




 
 
                                     Caixa para ovos em forma de galinha e marca de fabrico em faiança estilo Bordalo Pinheiro
                                                                                            de fabrico da concorrência
                                                                                                            (col. pess.)

                                                                                   
                                      



 
Desde sempre dotado de um enorme sentido de humor mas também de uma crítica social bastante apurada e sempre em cima do acontecimento, caricaturou todas as personalidades de relevo da política, da igreja e da cultura da sociedade portuguesa do seu tempo. Apesar dessa crítica demolidora revelada nos seus desenhos, as suas características pessoais e artísticas cedo conquistaram a admiração e o respeito do público em geral que teve a expressão notória num grande jantar em sua homenagem realizado em 6 de junho de 1903 na sala do Teatro Nacional D. Maria II, que de forma inédita congregou à mesma mesa praticamente todas as figuras que o artista tinha caricaturado.
Aos 58 anos, quando a sua produção artística ainda teria muito a revelar, Rafael Bordalo Pinheiro morre em Lisboa, no º 28 na rua da Abegoaria (atual Largo Rafael Bordalo Pinheiro) na freguesia do Sacramento no Chiado, no dia 23 de janeiro de 1905. Teve um funeral católico, no qual participaram várias dezenas de pessoas, incluindo políticos de destaque, onde o jovem médico António José de Almeida (1866 - 1929), se destacou com um oração fúnebre. Segundo o autor José-Augusto França, foi esta até então, a maior consagração pública prestada a um artista plástico em Portugal. Rafael Bordalo Pinheiro, homem de espírito criador, grande talento de artista, renovador da cerâmica das Caldas das Rainha, o caricaturista "pai" do Zé Povinho, deixou uma obra que se identifica com o próprio País e o seu povo, não só pelo génio do Artista, mas também pela intervenção do Homem.
Permanecem de surpreendente atualidade os seus comentários à política, à economia, à sociedade da época, nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que refletiu na cerâmica que, a partir de 1884, logra revitalizar nas Caldas da Rainha. Também durante o século XX diversas fábricas de cerâmica surgiram na região das Caldas da Rainha produzindo peças de inspiração bordaliana.

O primeiro museu dedicado à obra de Rafael Bordalo Pinheiro é a Casa Museu de São Rafael, situada na Rua Rafael Bordalo Pinheiro nº 53, nas Caldas da Rainha, foi a antiga casa do seu filho Manuel Gustavo. O Museu foi fundado no ano de 1884 com as peças produzidas no decorrer dos anos na fábrica de cerâmica do artista. Nele se exibem as diferentes fases de elaboração das peças. O acervo da Casa Museu é constituído sobretudo por cerâmica produzida ao longo dos anos na Fábrica Bordalo Pinheiro, contendo originais e cópias de peças desenhadas e executadas pelo artista no final do século XIX. Já o Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, tem origem na importante coleção gráfica bordaliana reunida pelo poeta e panfletário republicano Artur Ernesto de Santa Cruz Magalhães (1864 - 1928), grande admirador da obra de Bordalo, que em 1913, encomenda o projeto para uma moradia no Campo Grande, ao arquiteto Álvaro Machado (1874 - 1944), iniciando aí a instalação da coleção. De referir que esta moradia recebeu em 1914 uma menção honrosa do prémio Valmor. O Museu abre ao público em 1916, ainda confinado apenas ao primeiro andar do edifício, mas em 1922 havia já sofrido remodelações, designadamente a criação de novas salas exposição. Nesta data era já significativo o número de atividades de divulgação da obra do artista, entre exposições temporárias temáticas, conferências, criação do Grupo de Amigos Defensores do Museu e iniciativas para legar o museu ao Município de Lisboa, ideia que o fundador do museu acalentava desde a sua criação e que se veio a concretizar em 1924. Reabre em 1926, já na posse da Câmara Municipal de Lisboa, remodelado e ampliado ao rés-do-chão, oferecendo ao público, para além da obra gráfica, uma importante coleção de cerâmica e uma biblioteca, a que se sucedem novas incorporações fruto de aquisições e de doações de obras até então na posse de familiares de Bordalo e de colecionadores particulares. O Museu Bordalo Pinheiro reúne a mais completa coleção bordaliana: 1200 peças de cerâmica; 3500 exemplares de gravura; 3000 originais, entre desenho e pintura; 900 fotografias de época; mais de 3000 publicações; um significativo acervo documental composto pelo espólio privado de Cruz Magalhães e do Grupo de Amigos relacionado com a história da constituição da coleção e da fundação do Museu, e pelo de Julieta Ferrão (1899 - 1974), primeira diretora desta instituição. Vale a pena uma visita atenta e demorada a estes dois espaços, em Lisboa, o Museu Bordalo Pinheiro, no Campo Grande, 382, assim como nas Caldas da Rainha, a Casa Museu de São Rafael, na Rua Rafael Bordalo Pinheiro nº 53.
Passados que são 170 anos sobre o nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro, integrado nas Festas de Lisboa, as Marchas Populares de Lisboa, deste ano de 2016, vão ter como mote e celebrar a memória deste artista lisboeta, quando, uma vez mais, desfilarem na Avenida da Liberdade na noite de 12 de junho.




                                                                          Rafael Bordalo Pinheiro no seu gabinete de trabalho
                                                                                 na sua casa em Lisboa em 1902 (arq. priv.)
  


                                                           Rafael Bordalo Pinheiro em 1905 (arq. priv.)





Praça D. Pedro IV e Teatro D. Maria II em Lisboa em 1905 por Charles Chusseau-Flavies
(col. International Museum of Photography and Film)




Rafael Bordalo Pinheiro em 1891 por Columbano Bordalo Pinheiro
(col. Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa)




                                      Capa do catálogo do museu Rafael Bordalo Pinheiro de 1919 (col.priv.)




Casa Museu Rafael Bordalo Pinheiro em Lisboa (arq. priv.)
 


Sala de exposição de caricaturas na Casa Museu Rafael Bordalo Pinheiro em Lisboa (arq. priv.)
                     
                    

Peça em cerâmica artística em exposição na Casa Museu Rafael Bordalo Pinheiro
                                                                                                    em Lisboa (arq. priv.)
                        
            

Sala de exposição de cerâmicas artísticas na Casa Museu Rafael Bordalo Pinheiro em Lisboa (arq. priv.)
 
 



                                       Aspeto da Casa Museu São Rafael nas Caldas da Rainha na atualidade (arq. priv.)


               
                      
Busto em homenagem a Rafael Bordalo Pinheiro no Parque D. Carlos I,
nas Caldas da Rainha (arq. priv.)
 



A vida de Rafael Bordalo Pinheiro em fotos (col. Museu Rafael Bordalo Pinheiro)
                 





 
 
Roulote de venda de gelados com publicidades alusivas às festas de Lisboa de 2016 e
 da comemoração dos 170 do nascimento de Rafael Bordalo Pinheiro
(arq. pess.)

 

 



 

 

 

 

 

 

 

Texto:
Paulo Nogueira
 




Fontes e bibliografia:
PINTO, Manuel de Sousa, Raphael Bordallo Pinheiro. O Caricaturista, Livraria Ferreira, Lisboa, 1915
FANÇA, José-Augusto, Rafael Bordalo Pinheiro: tal e qual, Livraria Bertrand, Lisboa, 1981
Raphael Bordallo Pinheiro aos quadradinhos, Lisboa, Bedeteca de Lisboa, 1996
COUTO, Matilde Tomaz do, A Arte do Barro nas Caldas, in "Museu de José Malhoa. Roteiro", Museu de José Malhoa, Caldas da Rainha, 2005
Publicação online Restos de Colecção

Illustração Portugueza de 1902
Sitio Museu Bordalo Pinheiro