domingo, 31 de julho de 2016

A REGIÃO DEMARCADA DO DOURO






A história da cultura do vinho no Alto Douro é muito antiga. Não faltam descobertas arqueológicas e referências documentais a testemunhar a persistência cultural do empenho vitivinícola de outras eras. Desde a pré-história como atesta a descoberta de vestígios de grainhas de "vitis vinifera" na estação arqueológica do Buraco da Pala perto de Mirandela e datadas do século XX a.C. Recuando pelo menos aos séculos III-IV os vestígios de lagares e vasilhame vinário, um pouco por toda a região duriense. Em finais da idade Média intensificam-se as trocas comerciais, acelera-se o povoamento e desenvolve-se a agricultura nesta zona. Nascem e crescem vilas e as cidades principalmente as muralhadas como Freixo de Espada à Cinta, Torre de Moncorvo, Vila Nova de Foz Côa, Vila Flor, Ansiães, Freixo de Numão, Lamego, etc. Durante o período medieval, o vinho era produzido principalmente para uso em mosteiros e na celebração eucarística, e as áreas horizontais dos terrenos eram reservadas para o cultivo de cereais, especialmente milho. As videiras eram plantadas nas aberturas das paredes dos socalcos (pilheros). A instalação de diversas ordens religiosas, predominantemente os monges de Cister, dão grande contributo à produção, melhoria da qualidade do vinho e comércio que se faz exclusivamente pelo rio Douro até à foz em Gaia e no Porto. São exemplos desta atividade vitivinícola os mosteiros de Salzedas, S. João de Tarouca e S. Pedro das Águias. Já em 1552, o cronista Rui Fernandes escrevia que os vinhos de Lamego eram: "os mais excelentes vinhos e de mais dura que no reino se podem achar, e mais cheirantes, porque há vinhos de 4, 5, 6 anos e de quantos mais anos é, tanto mais excelente, e mais cheiroso".
No século XVI, João de Barros refere na sua geografia entre Douro, Minho e Trás-os-Montes os vinhos de qualidade produzidos nas terras próximas do Douro e do Pinhão. As vinhas não se expandiram até meados do século XVIII, altura a partir da qual os ingleses começaram a procurá-las para produção de vinho.
Porém, a designação de vinho do Porto surge apenas na segunda metade do séc. XVII, numa época de expansão da viticultura duriense e de crescimento rápido da exportação de vinhos. Em 1675 surge, pela primeira vez, a expressão "vinho do porto" no discurso sobre a introdução das artes no reino, da autoria de Duarte Ribeiro de Macedo. Em 1678, um inglês refere a junção de aguardente aos vinhos de embarque. Esta serviria para garantir a não deterioração nas grandes viagens marítimas e terrestres a que era submetido.



     Largar de vinho do período romano descoberto em Alijó na região do Douro (arq. priv.)

 
     Alto relevo representando a vinha no período romano no séc. I a.C. (Museu de Arqueologia de Firenze)


                                                Mosaicos romanos e moedas do mesmo período alusivos à produção vinícola 
                                                                      (Museu de Arte Romana de Mérida e col. Ocete Rubio)


 
Técnica da vinha plantada em socalcos no Douro "pilheros" (arq. priv.)


                                                                  Atividades vitivinícolas da Idade Média em 1180 (col. priv.)
                               
                               
                                                             Monge da Idade Média provando vinho das suas produções (col. priv.)

 
                                                       Iluminura do séc. XVI alusiva à viticultura do Livro das Horas de D. Manuel 
                                                                                   (col Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa)
                                                     
 

Aspetos da cidade do Porto e Gaia em 1669 por Pier Maria Baldi (arq. BND)
 


No último terço do séc. XVII, em tempo de rivalidades entre os impérios marítimos do Norte, flamengos e ingleses aumentam a procura dos vinhos ibéricos, em detrimento dos de Bordéus e de outras regiões francesas. A Inglaterra importa crescentes quantidades de Porto. Em 1703, o Tratado de Methwen virá consagrar no plano diplomático este fluxo mercantil, prevendo a contrapartida de privilégios para os tecidos britânicos no mercado português. A produção duriense, estimulada pela procura inglesa crescente e preços altíssimos, tenta adaptar-se às novas exigências do mercado. Como exemplo, o famoso general inglês William Twiss (1745 - 1827), afirmou ter bebido o melhor vinho tinto em Celorico da Beira, parecido com o da Borgonha e ainda de superior qualidade. Mas, como acontece a todos os grandes vinhos, o negócio rivaliza interesses, suscita fraudes e abusos. Em meados do século XVIII, nomeadamente a partir da década de 30 até à década de 50, as exportações estagnam, ao passo que a produção vinhateira parece ter continuado a crescer. Os preços baixam em flecha e os ingleses decidem não comprar vinhos, acusando os lavradores de promover adulterações, associado a essa situação surge a polémica das tabernas do Porto que adulteravam o vinho prejudicando a saúde pública com essas misturas. Esta crise comercial conduzirá, por pressão dos interesses dos grandes vinhateiros durienses como o Dr. Beleza de Andrade, D. Bartolomeu Pancorbo e Frei João de Mansilha, junto do governo de Sebastião de Carvalho e Melo futuro marquês de Pombal (1699 - 1782). É então criada uma instituição, a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, cujos capítulos foram aprovados por alvará régio em 10 de Setembro de 1756, com a assinatura de Sebastião de Carvalho e Melo. Com ela busca-se assegurar a qualidade do produto, evitando adulterações, equilibrar a produção, o comércio e estabilizar os preços. Na manhã de 23 de Fevereiro do ano de 1757, levanta-se no Porto um motim contra a Companhia. Resultado: muitos mortos, um reforço da autoridade real e o retrocesso das velhas liberdades das gentes do burgo nortenho. Esta criação que beneficia claramente os interesses reais, no seguimento da filosofia económica que atinge toda a velha Europa, criando monopólios. A doutrina económica presente é a do mercantilismo, caracterizada pelo protecionismo, pelos incentivos fiscais e instauração de monopólios. O objetivo último é o da acumulação de bens. - O poder do rei é medido pela quantidade de riqueza que consegue armazenar.

 
 
                                             Vista da cidade do Porto em 1736 por Duncalf (col. pess.)
 


                                                   Pipas de vinho do Porto numa adega (arq. pess.)
 

 

Sebastião de Carvalho e Melo futuro marquês de Pombal
 1699 - 1782 (col. priv.)
  
 
Página dos estatutos da Companhia Geral da Agricultura
das Vinhas do Alto Douro de 1756 (col. priv.)
 

                                                               Cartaz da Companhia Geral da Agricultura
                                                                                          das Vinhas do Alto Douro (col. priv.)

                                  

  
                                 Carimbos da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (col. priv.)
 
 
 
                                                      Alegoria ao marquês de Pombal protetor da viticultura duriense (col. priv.)


Armazéns da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro em 1910, 
no local onde iniciou as atividades, foto Guedes (arq. priv.)


 
                                          Vista da cidade do Porto em 1789 gravura de Teodoro de Sousa Maldonado
                                                            in Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto (col. priv.)
 
 

Entre 1757 a 1761 decorrem as demarcações pombalinas no que é a primeira demarcação da região vinhateira do Douro e que decorrerá com diversos incidentes. Procede-se à primeira «demarcação das serras». A região produtora é bordada por 335 marcos de pedra com a designação de Feitoria, designação que referendava o vinho da melhor qualidade, único que podia exportar-se para Inglaterra, vulgarmente conhecido por vinho fino. Define-se o conceito de cadastro.
Nos anos de 1788 e 1793 decorrem as demarcações da rainha D. Maria I (1734 - 1816), que era contra a política monopolista de Pombal e não podendo extinguir a Companhia Real dos Vinhos e Agricultura do Alto Douro por ele criada, e é alargada a área demarcada. Em 1792 são concluídos os trabalhos da demolição do rochedo do designado Cachão da Valeira, ficando o rio Douro navegável até Espanha. Apesar destas obras, o local, oferece variados perigos que culminam na morte de Joseph James Forester (1809 - 1861), barão de Forrester, num naufrágio. Segundo a lenda, D. Antónia Adelaide Ferreira (1811 - 1896), conhecida popularmente por "Ferreirinha", a maior proprietária e empresária vinhateira do Douro, dedicada ao cultivo de vinho na região e a introdução de notáveis inovações, cujas quintas produziam mais de 1500 pipas de vinho, segundo conta a lenda salvar-se-ia de um desastre no Cachão da Valeira, pois as suas saias serviram de boias aquando de um seu naufrágio. Dona Antónia tinha uma grande capacidade de previsão e perceção dos desenvolvimentos futuros, era uma hábil mulher de negócios e comprou muitas vinhas, algumas situadas mesmo em áreas completamente inacessíveis (Quinta do Vale Meão, no Douro Superior). De salientar que o barão de Forrester foi um empresário inglês radicado em Portugal e que iniciou uma reforma no comércio de vinhos, declarando guerra aos que adulteravam o vinho da região do Douro. Também se dedicou ao estudo das doenças da vinha como o oídio, desenhou notáveis mapas do vale do Douro entre outras ilustrações que pintou de toda esta região demarcada e obras que publicou sobre o mesmo tema, o Douro. Foi por este trabalho que o rei consorte D. Fernando II (1816 - 1885), lhe concedeu o título de Barão em 1855. Na segunda metade do século XIX, um conjunto de fatores conjuga-se para marcar o ponto de viragem do Douro pombalino para o Douro contemporâneo, promovendo profundas mudanças na viticultura duriense. Depois das destruições provocadas nos anos cinquenta pelo oídio, é a filoxera que, a partir da década seguinte, reduz a "mortórios" grande parte do vinhedo da área demarcada. Em 1865, a instauração do regime de liberdade comercial constitui, de facto, ao nível regional, a abertura da linha de demarcação, permitindo a expansão rápida do vinhedo no Douro Superior, onde o ataque da filoxera foi mais tardio e menos violento. Surgem novas práticas de preparação do terreno, alteram-se as práticas de plantação da vinha, selecionam-se as melhores castas regionais para enxertia, difunde-se a utilização racional de adubos e fito - sanitários, aperfeiçoam-se os processos de vinificação... Já no final do século, é bem visível o impacto da filoxera no reordenamento do espaço regional.



Exemplo de marcos que balizavam a Região Demarcada do Douro pelo marquês de Pombal (col. priv.)


                                    Marco de demarcação pombalino em quinta do Douro na atualidade (arq. priv.)


                            Aspeto do Cachão da Valleira no rio Douro em finais do séc. XIX, foto Emilio Biel  (col. pess.)


                                           Navegação no Cachão da Valleira no início do séc. XIX (col. pess.)


                                                       Dona Antónia Adelaide Ferreira 1811 - 1896
                                                                                                               (col. priv.)


                                                        Barão de  Forrester 1809 - 1861 (col. priv.)


Mapa do Alto-Douro pelo barão Joseph James Forrester (arq. Biblioteca Nacinal de Portugal)
 
 
                                                    Aspeto das vendimas na região do Douro em 1866 (col. pess.)


                                        Vista do Porto no início do séc. XIX, gravura de William Miller (col. pess.)


                                              Evolução das garrafas do vinho do Porto até 1812 (col. priv.)


Movimento de embarcações no Porto e Gaia em 1835 (col. pess.)
               

     Carregamento de pipas nas margens do rio Douro, albumina n.i, ca. 1870 (col. António Barreto)


Barco rabelo navegando no rio Douro em finais do séc. XIX (arq. priv.)
 

Trabalhadores no Douro durante a sulfatagem contra o oídio da vinha
                                                                                            no início do séc. XX (arq. priv.)
                                         


Aos poucos reorganizado e estendendo-se agora a uma área muito maior, o vinhedo duriense contará, a partir de finais dos anos oitenta do século XIX, com um outro inimigo, bem mais destruidor que as doenças da videira, a crise comercial. Paralelamente, a fraude. As imitações de vinho do Porto tornam-se frequentes nos nossos principais mercados, onde se vendem os French Ports, os Hamburg Ports, os Tarragona Ports, por preços inferiores aos genuínos Port Wínes. Crise comercial, crise da lavoura, o Douro era um retrato de miséria. Até há relativamente pouco tempo, o comércio do vinho do Porto estava dependente do rio Douro para transportar os vinhos da região do Douro para as caves dos exportadores localizadas no litoral. As primeiras referências a embarcações com vinho ao longo do Douro datam de cerca de 1200, quando estas eram referidas como barcas taverneiras. No entanto, durante a maior parte da história do vinho do Porto e até meados do século XX, as embarcações que realizaram este trabalho foram os notáveis barcos rabelos. A linha ferroviária do Douro constitui uma grande obra para o Douro pelas implicações nos transportes. O transporte tradicional em barcos rabelos, difícil e demorado deixa de efetuar-se e é substituído pelo comboio. A linha de caminho de ferro do Douro começa a construir-se em 1873. Passados cinco anos chega à Régua. A sua conclusão aconteceria em 1887, ano em que foi inaugurada a linha do Tua desde Foz-Tua a Mirandela. Grande mentor desta obra foi João da Cruz, cuja memória prevalece numa avenida em Bragança. Possuidor de vários terrenos e quintas no concelho, particularmente em Parambos, Selores e Ribalonga. No entanto os barcos rabelos mantiveram-se em menor número, na década de 1930 havia ainda cerca de 300 barcos rabelos registados. À medida que o acesso à região do Douro foi melhorando, o transporte rodoviário começou a assegurar o transporte. Em 1961, apenas 6 rabelos estavam ainda a funcionar. A última viagem comercial de um rabelo no rio Douro, crê-se ter sido em 1964.


Vista geral da Quinta do Noval in Douro Illustrado pelo visconde de Villa Maior 1876 (col. pess.)
   

    Trabalhadores das vindimas no Douro no final do séc. XIX, foto Emil Biel (arq. priv.)


Vindimas no Douro em 1911 (arq. priv.)


                                                                    Transporte de pipas num carro de bois numa quinta do Douro
                                                                                        em meados do século XX (arq. priv.)


     Embarque do vinho do Porto num barco rabelo no Pinhão em 1911, foto Emílio Biel (arq. AMP)


    Barco rabelo com pipas na Régua, início do séc. XX, foto Emílio Biel (col. Instituto do Vinho)


 Transporte das pipas de vinho do Porto sobre carros de bois, em Vila Nova de Gaia em1905 (arq. priv.)
 
 
                                     Envasilhamento do vinho nos armazéns da Sandeman em 1880 por William Prater (col. priv.)

                            

Estação de Covelinhas na linha do Douro in Álbum Caminho de Ferro do Douro de 1890,
foto Emilio Biel (col. pess.)


Cais privado de carregamento de pipas do vinho do Porto em plena linha do Douro, em 1912 (arq. priv.)
  

                                                       Postal ilustrado dos anos 20 com aspeto geral da estação da Régua
                                                                         com comboios transportando pipas (col. pess.)


Postal ilustrado dos anos 20 com barco rabela na Régua (col. pess.)
   

                                   Barco rabelo na zona da Régua no final dos anos 20, foto casa Alvão (col. priv.)


Postal ilustrado do anos 60 com barco rabelo (col. pess.)



Ao iniciar o seu governo de ditadura, a 10 de Maio de 1907, João Franco (1855 - 1929), assinava um decreto que vinha regulamentar a produção, venda, exportação e fiscalização do vinho do Porto, regressando aos princípios que nortearam, 150 anos antes, a política pombalina de defesa da marca. Foi novamente demarcada a região produtora, abarcando agora o Douro Superior. Restabelecia-se o exclusivo da barra do Douro e do porto de Leixões para a exportação dos vinhos do Porto, reservando-se a denominação de Porto para os vinhos generosos da região do Douro, com graduação alcoólica mínima de 16,5 % de teor alcoólico. A proteção e fiscalização da marca ficavam agora a cargo da Comissão de Viticultura da Região do Douro. Em contrapartida, o decreto de 27 de Junho, que veio regulamentar o comércio das aguardentes, proibia a destilação dos vinhos durienses, obrigando o Douro a receber de outras regiões vitícolas a aguardente para beneficiação dos seus vinhos, facto que motivou violenta contestação. O alargamento excessivo da área de demarcação suscitou também viva polémica. No ano seguinte, o governo do Almirante Ferreira do Amaral (decreto de 27 de Novembro) iria optar pela demarcação por freguesias, reduzindo a área produtora de vinho do Porto praticamente ao espaço da atual demarcação (Dec - Lei de 26 de junho de 1986), que corresponde ao que foi estabelecido pelo decreto de 10 de Dezembro de 1921. As exportações aumentaram a um ritmo nunca esperado, atingindo, em 1924/1925, mais de cem mil pipas, nível que só seria ultrapassado em finais da década de 1970.
Porém, a situação nas aldeias do Douro não parece ter sofrido melhorias significativas. A miséria e a fome agravavam-se com a subida dos impostos e dos preços dos produtos, no fim da Monarquia e durante a 1ª República. A agitação política e social do primeiro quartel do século XX marcou um dos períodos mais turbulentos da história do Douro. Manifestações, comícios, motins, incêndios de comboios com aguardente do Sul, assaltos a Câmaras e Repartições Públicas. O novo regime nascido do levantamento militar de 28 de Maio de 1926 viria impor novas alterações na organização do comércio de vinho do Porto e da lavoura duriense, reforçando o intervencionismo estatal. Logo em 1926, foi criado o Entreposto de Vila Nova de Gaia, que deveria funcionar como prolongamento da região produtora. Todas as empresas ligadas ao comércio do vinho passariam a ter aqui obrigatoriamente os seus armazéns de envelhecimento, acabando, na prática, com a comercialização direta, a partir do Douro. Em 1932, o regime corporativo organizava os Grémios da Lavoura, com representação dos Sindicatos locais, constituídos pelos proprietários cabeças - de - casal. Por seu turno, os Grémios Concelhios passariam a associar-se na Federação Sindical dos Viticultores da Região do Douro - Casa do Douro, organismo encarregado de proteger e disciplinar a produção. Regulamentação posterior (decreto de 30 de Abril de 1940) atribui-lhe poderes para elaborar a atualização do cadastro, distribuir o benefício, fornecer aguardente aos produtores, fiscalizar o vinho na região demarcada e conceder as guias para os vinhos a serem transportados para o Entreposto de Gaia.


Mulher nas vindimas do Douro nos anos 20 (arq. priv.)
                            

Trabalhadores tocando a caminho das vindimas do Douro no início do séc. XX (arq. priv.)
  

A designada "roga", convívio dos vindimadores que vinham de outras terras
para as vindimas no Douro nos 40, foto casa Alvão (arq. priv.)


                                           Transporte das uvas para o lagar no início do séc. XX (arq. priv.)


                                    Alegria na chamada pisa das uvas num lagar no Douro em meados dos anos 40
                                                                                   mantendo as antigas tradições (arq. priv.)


Uma aldeia pobre do Barroso em finais do séc. XIX (arq. priv.)
                           


 Processo de carregamento das pipas no Alto Douro no início do séc. XX, foto casa Alvão (col. Instituto do Vinho)
 
  
Postal ilustrado do início do séc. XX com a ponte D. Maria Pia no Porto e barco rabelo (col. pess.)

 
    Barco rabelo com pipas no Porto no início do séc. XX, foto casa Alvão (col. Instituto do Vinho)


Publicidade à Real Companhia Vinícola, em 1905 (col. priv.)
 

Cartaz publicitário do anos 20 ao vinho do Porto
(col. priv.)


Em 1933, era organizado o Grémio dos Exportadores do Vinho do Porto, associação do sector comercial com as funções de zelar pela disciplina do comércio. As atividades da Casa do Douro e do Grémio dos Exportadores passam a ser coordenadas pelo Instituto do Vinho do Porto, organismo criado nesse mesmo ano com as funções de estudo e promoção da qualidade, fiscalização e propaganda do produto. Foi atualizado o cadastro dos vinhedos. De acordo com a localização, as características do terreno, as castas e a idade da vinha, a Casa do Douro atribui anualmente a cada viticultor uma autorização para produzir uma quantidade de mosto determinada, a que corresponde uma certa qualidade (da letra A, o melhor, até à letra F) e um preço correspondente. É o sistema de benefício. A partir dos anos 50, desenvolve-se o movimento cooperativo, que, nos inícios da década seguinte, abarcará cerca de 10% do número de produtores e da produção vinícola regional. Após 1974, a organização corporativa é extinta, mas a Casa do Douro e o Instituto do Vinho do Porto mantêm as suas funções básicas de defesa da qualidade da marca. Por seu turno, o Grémio dos Exportadores deu lugar à Associação dos Exportadores do Vinho do Porto, que passou a designar-se, mais recentemente, Associação das Empresas de Vinho do Porto. Entre as empresas exportadoras, tem-se verificado uma tendência para a concentração. Paralelamente, algumas dessas empresas têm realizado grandes investimentos na área da produção, adquirindo quintas e vinhedos, e fazendo novas plantações. Em movimento inverso, alguns produtores lançam-se, desde 1978, no circuito da comercialização direta, recuperando uma prática perdida em 1926. Em 1986, cria-se a Associação de Produtores Engarrafadores de Vinho do Porto, visando sobretudo a exportação direta, a partir das quintas do Douro, em nome dos respetivos produtores.

 

Vindimas no Douro em meados dos anos 30 (arq. priv.)


                                           Vindimas animadas no Douro em 1934, foto casa Alvão (arq. priv.)


Reboque de barcos rabelos pelas margens do rio Douro em meados dos anos 30 (arq. priv.)
 
 
                                              Descarga das pipas de um barco rabelo no Porto (arq. priv.)


                                                                               Cartaz publicitário de marca de vinho do Porto
                                                                                                          de 1950 (col. priv.)



                              Vindimas no Douro na década de 70 mantendo ainda as antigas tradições (arq. priv.)

                                            Cachos de uvas maduras numa vinha do Douro (arq. priv.)



Em 1995, a região Demarcada do Douro viu alterado o seu quadro institucional. Passou a estar dotada de um organismo interprofissional, - a Comissão Interprofissional da Região Demarcada do Douro (CIRDD), no qual tinham assento, em situação de absoluta paridade, os representantes da lavoura e do comércio, com o objetivo comum de disciplinar e controlar a produção e comercialização dos vinhos da região com direito a denominação de origem. As alterações introduzidas respeitaram, contudo, as especificidades históricas, culturais e sociais da região, seguindo as linhas orientadoras da lei - quadro das regiões demarcados vitivinícolas. Duas secções especializadas compunham o Conselho Geral da CIRDD determinando as regras aplicáveis a cada uma das denominações: uma relativa à denominação de origem "Porto" e outra aos restantes vinhos de qualidade ("VQPRD") da região. A Comunidade Europeia em 1998 elabora um regulamento que estabelece normas de execução relativas à proteção das menções tradicionais complementares utilizadas para certos tipos de vinhos de qualidade produzidos em regiões demarcadas. Este regulamento protege as menções relativas à Região do Douro como "Vintage", "Late Bottled Vintage", "Tawny", "Ruby". São igualmente reconhecidas as denominações de "Douro" e "Porto". Atualmente a produção de vinhos nesta região do Douro, incide mais nos vinhos designados de "tranquilos" (vinhos não licorosos), do que nos "generosos" (vinhos licorosos com alto teor de açúcar e álcool). A designada Região Vinhateira do Alto Douro ou o Alto Douro Vinhateiro, é uma área do nordeste de Portugal com mais de 26 mil hectares, classificada pela UNESCO em 14 de Dezembro de 2001, como Património da Humanidade, na categoria de paisagem cultural e rodeada de montanhas que lhe dão caraterísticas mesológicas e climáticas particulares. Este modelo veio a sofrer nova alteração em 2003, com a substituição da CIRDD por um Conselho Interprofissional Integrado no Instituto dos Vinhos do Douro e Porto.



Vista das encostas vinhateiras do Douro e da aldeia do Marmelal, em meados dos anos 90
(foto Mário Pascoal Nogueira)
 

                                                       Vinhas nas encostas do Douro em meados dos anos 90
                                                                                                (foto Mário Pascoal Nogueira)
 

                                       Alto Douro vinhateiro Património da Humanidade na atualidade (arq. priv.)





                                                  Aspetos das vindimas no Douro na atualidade (arq. priv.)


                                                     A designada pisa das uvas num lagar no Douro na atualidade (arq. priv.)

 
 Vista do Porto com os tradicionais barcos rabelos em exposição na atualidade (foto António M.L. Cabral)


Envelhecimento do vinho do Porto em pipas na adega da Taylor's em Vila Nova de Gaia (arq. priv.)

 
                                                    Vinho tinto de mesa da região do Douro (arq. priv.)




 A cor inconfundível num cálice de vinho Porto (arq. priv.)

 


Prova de vinho na região vinhateira do Douro (arq. priv.)

 
 
 

A Região Demarcada do Douro divide-se em 3 zonas distintas:


Baixo-Corgo
Representa mais de metade da região demarcada com 51% da área ocupada por vinha, com 13.500 hectares de vinhedo, representa toda a margem direita do Rio Douro, desde Barqueiros ao Rio Corgo (Régua). A razão de assim ser é por esta área estar na origem da viticultura. As uvas cultivadas aqui são utilizadas principalmente para a produção do Porto Ruby e Tawny de preço pouco elevado. Mesmo em séculos anteriores o rio Douro era navegável até este ponto e a produção era transportada rio abaixo. Compreende a margem esquerda do rio Douro, desde a freguesia de Barrô até ao Rio Temilobos, nas proximidades da Vila de Armamar.


Cima-Corgo
Localizado a montante do Baixo Corgo, esta região está centrada na cidade do Pinhão. As uvas cultivadas nesta zona são consideradas de elevada qualidade, sendo utilizadas na produção de Vintages e de Late Bottled Vintages. O Cima Corgo é o coração do cultivo vitivinícola para o vinho do Porto. Cerca de 17.000 hectares de vinhedos albergam as marcas e os nomes mais conhecidos e muitas das mais belas quintas. 36% da região demarcada, estende-se desde as fronteiras da anterior e vai até ao meridiano que passa no Cachão da Valeira.


Douro superior
A área mais pequena com aproximadamente 13%, desde as fronteiras da Cima-Corgo prolongando-se até à fronteira espanhola. Esta é a região menos cultivada do Douro, em parte devido às dificuldades de navegação no rio após o Cachão da Valeira. Apenas uma pequena parte (8.000 hectares) da enorme área do Douro superior (110.000 hectares) é utilizada para viticultura. Há um total de cerca de 33.000 viticultores na região do Douro, 80% possuem menos de 0.5 hectares.


                                          
                                                    Mapa atual da Região Demarcada do Douro
 


 
Ao longo de quase dois milénios, fez-se, nas encostas xistosas do vale do Douro, uma paisagem vitícola singular, um vinho excecional. Mais do que um dom da natureza, o vinho do Porto é, na sua essência, um património cultural coletivo de trabalho e experiências, saberes e arte, que gerações e gerações acumularam. O vinho do Porto foi e é um produto chave da economia nacional e ainda mais um valor simbólico que distintamente representa a portugalidade no mundo. Para além do vinho, o Douro tem-se afirmado nos últimos anos como um pólo de desenvolvimento turístico. Vários operadores turísticos ligados à navegação fluvial, assim como a criação de comboios turísticos a vapor, percorrem o rio entre a Régua e o Tua e outro que percorre a linha do Corgo entre a Régua e Vila Real, principalmente no Verão. Algumas unidades hoteleiras e de turismo rural vão se implantando na região. Douro, uma região vinícola de uma beleza indescritível.

 

Vindimas no Douro e barco de cruzeiro turístico no rio (foto João Prates)
                                                 

Barco de cruzeiro turístico no rio Douro por entre as belas paisagens vinhateiras (arq. priv.)
                                      

Barco de cruzeiro turístico subindo o rio Douro junto à cidade da Régua (arq. priv.)
 
 
Receção aos turistas do comboio histórico a vapor do Douro na estação da Régua (arq. priv.)


                                                         Comboio histórico a vapor no Douro (foto LUSA)
 

     Comboio histórico Régua - Vila Real entre as vinhas na zona de Carrazedo em 2002 (foto Carlos Pinto)


                                                               Turismo de habitação no Douro (arq. priv.)


Outro exemplo de turismo rural na Quinta da Vista Alegre na região duriense (arq. pess.)
 
   
                                                 Vista de Vila Seca de Armamar e região do Douro (arq. pess.)


Vista do rio Douro e seus socalcos a partir de Vila Seca de Armamar (arq. pess.)


                                                   Restaurante junto ao rio Douro na Folgosa (arq. pess.)


Vista dos socalcos do Douro na zona do Pinhão (arq. priv.)
                           
     
                                                     Vista do rio Douro e região vinhateira com os seus socalcos classificada como
                                                                   Património da Humanidade pela UNESCO em 2001 (arq. priv.)

                            





Texto:
Paulo Nogueira


 

Fontes e bibliografia:

SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, volume VI O Despotismo Iluminado [1750 - 1807], Editorial Verbo, Lisboa, 1982
AMARAL, José Duarte, O Grande Livro do Vinho, Círculo de Leitores, Lisboa, 1994