sábado, 22 de julho de 2017

D. PEDRO V DE PORTUGAL


O Esperançoso







Abordar a vida e história do rei D. Pedro V na sua essência, justifica-se dada a importância que este monarca teve em tão pouco tempo de vida e reinado, para Portugal, assim como no importante papel que teve no desenvolvimento, quer tecnológico, quer social daquela época do País em vários sectores. De seu nome Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio de Bragança, Bourbon e Saxe Coburgo Gotha, nasceu em Lisboa no Paço Real das Necessidades a 16 de setembro de 1837, onde também faleceu a 11 de novembro de 1861, sendo baptizado na capela do mesmo Paço a 1 de outubro seguinte pelo cardeal patriarca de Lisboa D. Fr. Patrício da Silva (1756 - 1840), capelão-mor da rainha D. Maria II. De cognome, O Esperançoso, O Bem-Amado ou O Muito Amado, filho primogénito da rainha D. Maria II (1819 - 1853) de Portugal soberana, e de seu marido, o rei consorte D. Fernando II (1816 - 1885). No dia do nascimento do infante D. Pedro, houve festas por toda a Lisboa e nas hortas dos arrabaldes em torno da cidade. Tudo isto porque se receava o perigo de não haver sucessão por parte da rainha D. Maria II dada a sua difícil gravidez. Pedro foi jurado e reconhecido príncipe real e herdeiro da coroa portuguesa pelas Cortes Gerais a 26 de janeiro de 1838, tendo de idade pouco mais de quatro meses. Considerada uma criança sobredotada, foi educado primorosamente, assim como os seus irmãos, D. Luiz I de Portugal (1838 - 1889), D. João de Bragança, duque de Beja (1842 - 1861), D. Maria Ana de Bragança, princesa da Saxónia (1843 - 1884), D. Antónia de Bragança (1845 -1913), D. Fernando Maria Luiz de Bragança (1846 - 1861) e D. Augusto de Bragança, duque de Coimbra (1847 -1889), pelos melhores professores de Lisboa, e principalmente por sua mãe, que teve sempre a reputação justíssima de excelente educadora. Desde muito novo revelou as brilhantes qualidades que o caracterizavam, a sua notável inteligência, a sua tendência para um perseverante estudo, as mais nobres e mais elevadas qualidades de espírito e de coração. Teve uma notável preparação moral e intelectual. Estudou ciências naturais, filosofia, dominava bem o grego, o latim e chegou a estudar inglês. Antes de completar os dois anos de idade já dominava a língua alemã e francês, aos doze anos falava latim e grego, estudava grandes obras de filosofia e escrevia artigos para jornais. O seu espírito terá sido influenciado pela convivência que teve com Alexandre Herculano (1810 - 1877), que foi seu educador. Recebeu ainda inúmeros conselhos sobre governação e sentido de Estado por Mário Jorge de Castro Botelho, com quem trocava correspondência, entre outros vultos da época, durante o período do seu reinado.
A aprendizagem do jovem monarca, também se fez com as diversas viagens que irá realizar por Portugal e ao estrangeiro, visitando várias cortes europeias, observando escolas e métodos de ensino, asilos, hospitais, fábricas e museus. Quando faleceu sua mãe, a rainha D. Maria II, a 15 de novembro de 1853, Pedro contava dezasseis anos, a quem sucedeu no trono. D. Pedro V é o 30.º rei de Portugal e embora muito jovem aquando a sua ascensão ao trono português, foi considerado por muitos como um monarca exemplar, que reconciliou o povo com a casa real, após o reinado da sua mãe ter sido fruto de uma guerra civil vencida. Quando D. Pedro V inicia o seu reinado, governava ainda o ministério de Saldanha, saído da Regeneração de 1851. O duque de Saldanha que D. Pedro deplorava e desprezava, considerado um condottieri, já um tanto ultrapassado para o país capitalista (capitalista à custa, refira-se, do capital estrangeiro, sobretudo, francês e inglês) já não vai em conspirações, quer estabilidade. Sobressai neste ministério António Maria de Fontes Pereira de Melo (1819 - 1887), titular da pasta das Obras Públicas, famoso pelo impulso que deu aos caminhos de ferro em Portugal entre outras obras em Portugal. D. Fernando II, seu pai, desempenhou um papel fundamental no início do seu reinado, tendo exercido o governo da nação na qualidade de regente do reino, orientando o jovem rei no que diz respeito às grandes obras públicas efectuadas. D. Pedro V é frequentemente descrito como um monarca com valores sociais bem presentes, em parte devida à sua educação, que incluiu trabalho junto das comunidades e um vasto conhecimento do continente europeu. Para festejar solenemente o início do reinado de D. Pedro V em 1853, é fundado o Asylo D. Pedro V, no Campo Grande em Lisboa, sendo este monarca desde logo seu protector. O seu magnífico edifício ainda existe, e seria inaugurado em 18 de outubro de 1857, sendo os seus Estatutos aprovados a 2 de novembro de 1860. No início apenas recebia crianças até à idade dos sete anos, com a morte deste monarca, os estatutos foram reformados em 1867, transformando-se no Asilo da Infância Desvalida do Campo Grande, podendo as asiladas permanecer até aos 18 anos. O comercio de Lisboa contribuiu para a manutenção deste Asilo. Marcando-se aos dezoito anos a maioridade dos reis de Portugal, D. Pedro V era ainda menor, e nesse mesmo dia foi convocado o Conselho de Estado, que deliberou confiar a regência do reino, durante a menoridade do jovem monarca, a seu pai, o rei consorte D. Fernando II, visto não haver disposição alguma a respeito dessa questão na Carta Constitucional, deliberação que foi depois confirmada pelas Cortes Gerais, e de que prestou juramento na sessão de 19 de dezembro de 1853. Foi durante o seu reinado que se iniciou a Regeneração e Portugal entrou por assim dizer na modernidade. D. Pedro V e seu irmão D. Luiz I de Portugal, que mais tarde lhe sucedeu no trono, empreenderam uma viagem de instrução e recreio pela Europa. Em maio de 1854 saíram a barra de Lisboa a bordo do navio a vapor Mindelo, indo directamente a Londres, passando depois à Bélgica, Holanda, Prússia, Áustria, França e Saxe-Coburgo-Gotha, voltando a Londres, donde regressaram a Lisboa. Em todas estas cortes granjearam os régios viajantes as maiores provas de consideração e de simpatia. Como prova disso, durante essa deslocação a Londres, em 10 de junho de 1854, D. Pedro V e seu irmão D. Luiz I, acompanharam, à direita no lugar de honra, a Rainha Vitória do Reino Unido na sumptuosa reabertura do Palácio de Cristal, reinstalado em Sydenham Hill. Foram pois, o rei e príncipe portugueses recebidos na intimidade da Família Real Britânica e essa amizade haveria de perdurar, mesmo para além da estadia nas Terras de Sua Majestade, pois continuariam a corresponder-se com assiduidade tornando-se a rainha Vitória e o príncipe Alberto, conselheiros e mesmo confidentes do jovem monarca português.
No ano seguinte, 1855, empreenderam nova viajem, visitando outra vez algumas das terras já citadas, e também a Itália, Suíça, etc. Todos os locais de visita lhes serviram como aprendizagem de outras realidades, sobretudo os mais inovadores e aquelas que urgia implementar em Portugal.
  

 
 
Palácio das Necessidades, onde D. Pedro V nasce em 16 de setembro de 1837,
por Celestine Brelaz (Lenoir) (col. BNP)



Rei consorte D. Fernando II  1816 - 1885 e D. Maria II de Portugal 1819 - 1853,
pais de D. Pedro V (col. priv.)
 
 
 
Rainha D. Maria II com o filho de poucos meses de idade,
o futuro rei D. Pedro V (col. pess.)
 
 
 
D. Pedro, Duque de Bragança (à esquerda) e seu irmão D. Luiz, Duque do Porto,
ainda crianças em quadro encomendado pela rainha Vitória do Reino Unido
a William Barclay Jr., em 1843 (col. Palácio da Vila de Sintra)
 
 
 

Desenho do rei D. Fernando II com a primeira árvore de Natal em Portugal em 1844
e o futuro rei D. Pedro V em criança com um brinquedo
(col. Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa)
 
 
 
D. Pedro V quando criança (col. priv.)

 
 
 
Desenho elaborado pelo rei D. Fernando II de Portugal alusivo às suas comemorações de Natal em família
com os infantes, incluindo Pedro V, ainda crianças, em 1848
(col. Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa)




D. Pedro V aos 15 anos em 1852 (col. priv.)




Alexandre Herculano 1810 - 1877 responsável pela educação de D. Pedro V
(col. pess.)




O jovem D. Pedro V dedicado ao estudo de ciências naturais,
filosofia, línguas e escrita
(col. pess.)




Bandeira com as armas do rei D. Pedro V de Portugal (arq. priv.)


 

O jovem  rei D. Pedro V já com 16 anos em 1853 (col. priv.)
 



Assinatura do rei D. Pedro V de Portugal (arq. priv.)








Selos postais de 5, 50 e 100 reis com a efigie do rei D. Pedro V
emissão cabelos lisos de 1853 (col. priv.)



Asylo de D. Pedro V no Campo Grande em meados dos anos 60/70 do séc. XIX,
numa gravura de Pedrozo, in O Universo Illustrado (col. pess.)


 

D. Pedro V aos 17 anos em 1854, por W. Corden
(col. Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa)
 
 
 
 
Alusão ao jovem rei D. Pedro V em decoração de peça de porcelana
de meados dos anos 50 do séc. XIX (col. priv.)

 

Rótulo de cigarros A Dom Pedro V Rei de Portugal
(col. Fundação Joaquim Nabuco, Brasil)




Relógio de bolso suíço, pertencente ao rei D. Pedro V, com o seu retrato 
em caixa de ouro gravada e cinzelada (col. priv.)


 

António Maria de Fontes Pereira de Melo 1819 - 1887,
Ministro das Obras Públicas
(col. pess.)


 
 
Rei consorte D. Fernando II de Portugal, regente do reino,
durante a menoridade do jovem monarca seu filho D. Pedro V
(col. Palácio Nacional da Pena, Sintra)
 


O jovem rei de Portugal D. Pedro V baseado em foto de Mayer & Pierson
(col. pess.)


 
Navio a vapor Mindelo, embarcação tantas vezes usada por D. Pedro V
e por membros da família real portuguesa,
 por Luís Ascênsio Tomasini (col. priv.)




O jovem rei D. Pedro V fotografado por Mayer & Pierson
durante a sua estadia em Inglaterra em 1854
(arq. priv.)



Os irmãos D. Luiz I em pé e sentado D. Pedro V
aquando da sua estadia em Londres em 1854
(arq. priv.)

 

D. Pedro V de Portugal, sentado, inclinado sobre a mesa D. Luiz I,
aquando uma das suas estadias em Londres em 1854
e de costas, com xaile, a Rainha Vitória do Reino Unido
(arq. priv.)




No regresso dessa viagem, completando D. Pedro V, dezoito anos em 16 de setembro de 1855, foi nesse dia declarada a sua maioridade, e prestou juramento em sessão solene das Cortes Gerais perante os Pares do Reino e os Deputados da Nação: Pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc..
Nesse dia recebe de seu pai D. Fernando II, rei regente, os deveres do trono de Portugal que pertencera a sua mãe a rainha D. Maria II.  Realizaram-se grandes e entusiásticas festas em Lisboa, para solenizar o novo rei que ia assumir o pesado e espinhoso cargo da governação do reino. Este novo rei era um jovem de 18 anos, sério e sensato, ilustrado e grave como um homem com o dobro da sua idade cronológica. Sempre preocupado com a educação e formação, em 9 de dezembro de 1855 inaugura no próprio Palácio de Mafra a Escola Real de Mafra, sendo esta instituição financiada pelo próprio monarca. Nesse mesmo ano D. Pedro V presidiu à inauguração do primeiro telégrafo eléctrico em Portugal e, no ano seguinte, a 28 de outubro de 1856, inaugura o primeiro troço de caminho de ferro em Portugal entre Lisboa e o Carregado (tema já desenvolvido em artigo anterior), dando seguimento a um processo iniciado pela sua mãe, a rainha D. Maria II em 1853. No que respeita ao caminho de ferro D. Pedro V acompanhou com interesse e entusiasmo de perto as obras e testes de linha que aconteceram dias antes da inauguração. Tendo sido criada a primeira companhia de caminhos de ferro em Portugal, a Companhia Peninsular dos Caminhos de Ferro de Portugal, encarregada de construir a linha do Leste de Lisboa até Espanha. Nesse dia após a bênção das locomotivas, dezasseis carruagens partiram em ambiente de festa para o Carregado, rebocadas por duas locomotivas baptizadas com os nomes de "Santarém" e "Coimbra". O jovem rei D. Pedro V e os convidados da direcção da empresa seguiram na carruagem principal, rodeado dos seus técnicos, todos conversado sobre esta novidade e inovação para o Portugal. Embora atribulada esta viagem inaugural, seria o princípio do grande e importante desenvolvimento para o País. Como curiosidade, D. Pedro V e os seus irmãos, nomeadamente D. Luiz I, desde cedo tiveram convivência com as novas tecnologias da época, o que os viria de certa forma a influenciar mais tarde no que respeita ao caminho de ferro. Exemplo disso foi a locomotiva miniatura brinquedo, a vapor real, que o rei de França Louis Philippe I (1773 - 1850), solicitou ao engenheiro mecânico Eugène Philippe, construir a cópia de uma locomotiva a vapor brinquedo (designado de steam live ou vapor vivo), sua pertença, denominada La Lilliputienne, para oferecer a família real portuguesa. Iniciou-se assim também, a formação cultural por via dos contactos que tiveram enquanto crianças e jovens os dois monarcas, com aquele brinquedo do Palácio das Necessidades. Foi a primeira locomotiva a vapor a existir em Portugal. Por volta de 1880, este brinquedo foi disponibilizado para o Passeio Público de Lisboa. A locomotiva, o seu tender e a rede de carris passava a ser uma instalação de "steam live" (vapor vivo) ao serviço dos filhos da burguesia lisboeta e fonte de animação naquele lugar público. Actualmente esta locomotiva encontra-se preservada no Museu Nacional Ferroviário  (MNF) no Entroncamento.  É também no seu reinado que se iniciam as primeiras viagens regulares de navio, entre Portugal e Angola. A instrução popular foi sempre a sua grande preocupação. Fundou a Escola Real das Necessidades em 16 de setembro de 1856, num edifício próximo do Paço Real, e no Paço de Mafra havia instalado uma escola, no ano anterior. Este rei tinha por gosto distribuir livros em prémios às crianças, encarregara o seu secretário Joaquim Pinheiro Chagas (1809 - 1859), pai do falecido estadista e distinto escritor Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (1842 - 1895), de traduzir e adaptar às escolas portuguesas a Clef de la Science, do Dr. Brewer. Esta tradução ficou interrompida com a morte do tradutor, sucedida em 3 de dezembro de 1859. Grandes infortúnios começaram desde logo a assinalar o seu reinado. Em 1856 desenvolveu-se em Lisboa uma epidemia de cólera morbus, e em muitos outros pontos do país, fazendo consideráveis números de vítimas, no ano seguinte, 1857, outro flagelo, que se tornou ainda mais devastador, a febre-amarela, veio assolar a capital. Foram dois anos de triste memória, que enlutaram milhares de famílias em Portugal, extinguindo-se muitas delas completamente, deixando muitas crianças na orfandade. A cidade de Lisboa, principalmente em 1857, apresentava um aspecto muito triste, em especial na parte baixa da cidade, viam-se encerrados numerosos estabelecimentos; uns, por os seus proprietários terem falecido, outros por terem saído de Lisboa, fugindo ao terrível contágio das epidemias sucessivas. O terror geral era indescritível; por ordem do governo, jornais foram proibidos de dar longas notícias sobre os falecimentos, assim como o número e nomes das vítimas, que chegavam a ocupar diariamente muitas colunas. Os enterros passaram a fazer-se de noite, de forma simples e discreta, não sendo permitidas as pompas fúnebres, apenas uma sege conduzindo o morto e o padre para o acompanhar. Os hospitais não eram suficientes para abrigar o enorme número de pacientes, tendo-se organizado alguns provisórios em certos pontos da cidade. Numerosas procissões de penitência percorriam as ruas da capital, e nas igrejas todos os dias se entoavam preces. Os teatros e outros divertimentos públicos fecharam. A consternação era geral, as ruas viam-se desertas, o terror via-se estampado em todas as fisionomias. Muitos habitantes de Lisboa abandonaram a cidade, indo viver para os arredores como Campolide e Benfica, assim como para outras terras distantes. Altos funcionários e outros empregados públicos, capitalistas, negociantes e o próprio patriarca, saem da capital. No meio desta pavorosa e angustiosa situação sobressaía a figura do jovem monarca D. Pedro V que, apesar dos conselhos de quantos o rodeavam, não quis abandonar Lisboa, e qual outro apóstolo do bem e da resignação, se dirigia aos hospitais, sentando-se junto dos leitos dos enfermos, a quem dirigia palavras de esperança e conforto. Quando os ajudantes que o acompanhavam nestas piedosas visitas lhe pediam que não se expusesse assim tanto ao terrível contágio, respondia secamente que se tinham medo o deixassem, que ele podia ali estar só. Este acto de abnegação e caridade causou a maior impressão em toda a gente e a admiração até dos estrangeiros. Um rapaz que apenas contava 20 anos de idade, dando um exemplo tão grandioso de amor pelos que sofriam, procurando suavizar-lhes o sofrimento, ao menos animando-os com a sua presença.
Como governante o rei D. Pedro V foi um liberal de espírito moderado, tendo-se distinguido pela superior consciência dos problemas do País. Estudava com minúcia as deliberações governamentais propostas. Granjeou uma enorme popularidade, pelas grandes obras públicas efectuadas e por ser um monarca infatigável e meticuloso soberano que se dedicava afincadamente no governo do País, estudando com minúcia as deliberações governamentais propostas e os impactos delas, para que ninguém o pudesse acusar de assinar algo de que não tinha conhecimento. Este tipo de postura perante a governação do País revelou que o monarca se recusou a ser um mero "rei-carimbo". D. Pedro V governou, de facto, de uma forma individualizada, o que lhe valeu uma grande popularidade. Exemplo da atenção que dava às opiniões e queixas dos seus súbditos foi a resolução inédita, tendo mandado pôr à porta do palácio da Ajuda a famosa caixa verde, cuja chave guardava, para que o seu povo pudesse falar-Lhe com franqueza, depositando lá as suas expectativas e queixas! De salientar que existem divergencias quanto ao local onde se situava esta caixa verde, se no palácio da Ajuda ou no palácio das Necessidades, no entanto esta medida tomada por D. Pedro V causou no parlamento algumas contestações.
 

 
 

Miniatura de retrato do jovem rei D. Pedro V em 1855,
 litografia aguarelada (col. priv.)



Palácio das Cortes em meados dos anos 50 do séc. XIX, negativo de gelatina e prata em vidro
por José Artur Leitão Bárcia (arq. AML)



A Câmara dos Deputados nas Cortes Portuguesas
em meados dos anos 50 do séc. XIX
(col. pess.)



Aclamação de D. Pedro V em 16 de  outubro de 1855 in The Illustrated London News (col. pess.)




Medalha da Escola Real de Mafra de 1856, verso e reverso,
destinada a premiar os alunos que se destaquem
(col. priv.)



 
Operadores de telegrafo eléctrico em meados de 1850 ,
idêntico ao inaugurado pelo rei D. Pedro V em 1855
(col. pess.)



Representação da inauguração do caminho de ferro em Portugal
e a bênção da primeira locomotiva em 28 de outubro de 1856
 com a presença do rei D. Pedro V (col. pess.)



Locomotiva a vapor da Companhia Peninsular dos Caminhos de Ferro de Portugal,
rebocando comboio em meados de 1856 (arq. priv.)



Chegada do primeiro comboio a circular em Portugal à estação do Carregado
em 28 de outubro de 1856 por António Joaquim de Santa Bárbara
(col. MNF)




Medalha comemorativa da inauguração do Caminho de Ferro do Leste
em 28 de outubro de 1856, verso e reverso (col. pess.)




Ponte de Xabregas no caminho de ferro do Leste em 1857,
desenho de Bordalo, numa gravura de Coelho
 in Archivo Pittoresco (col. pess.)




O jovem rei D. Pedro V em meados de 1856 (col. pess.)




Locomotiva a vapor em miniatura La Lilliputienne oferecida aos príncipes (col. MNF)



Embarcação a vapor do início das primeiras viagens regulares de navio,
entre Portugal e Angola no reinado de D. Pedro V em 1856
(col. pess.)




Edifício onde funcionou outrora a Escola Real das Necessidades
fundada por D. Pedro V, na Calçada das Necessidades em Lisboa
 na actualidade (arq. priv.)




                                               Selos postais de 5 e 25 reis com a efigie do rei D. Pedro V
                                                                              emissão cabelos anelados de 1856 (col. priv.)





Alusão à epidemia da cólera morbus de Lisboa em 1856 (col. Museu do Chiado, Lisboa)



Aspecto da praça do Rossio vazia durante o período da epidemia de cólera morbus ,
na década de 50 do séc. XIX em albumina de Amédée Lemaire de Ternante. Lisboa
(col. Alcídia e Luís Viegas Belchior)


Aspecto da praça do Rossio em Lisboa, vazia durante o período da epidemia de cólera morbus
na década de 50 do séc. XIX (arq. priv.)


Largo dos Remolares em Lisboa em meados dos anos 50 do séc. XIX vazio
durante o período da epidemia de cólera morbus
(arq. Centro Português de Fotografia)



O jovem D. Pedro V com 20 anos sempre dedicado ao seu povo e às questões sociais
(col. pess.)




Landau do rei D. Pedro V (col. Museu Nacional dos Coches, Lisboa)




Vista do Paço da Ajuda em Lisboa na década de 1850 (col. BNP)
 


Fachada do palácio da Ajuda em finais da década de 50 do séc. XIX onde existia a famosa caixa verde,
desenho Nogueira da Silva, numa gravura de Coelho e Pedrosa in Archivo Pittoresco (col. pess.)




O rei D. Pedro V tornou-se muito popular, o povo adorava-o, e chamava-lhe o "rei santo". A sorte protegia-o, porque expondo-se com tanta coragem ao perigo do tenebroso contágio, não teve o menor sinal de doença naqueles meses de agosto, setembro, outubro e novembro de 1857, em que mais se pronunciaram os efeitos da epidemia. Pouco a pouco foram rareando os casos, que até então eram numerosos todos os dias, e quando chegou o fim de dezembro a febre amarela estava completamente extinta, restando os choros, os lamentos das pessoas que tinham perdido parentes queridos e crianças órfãs, que se viam sós entregues à mais profunda tristeza e saudade. Por iniciativa do rei D. Pedro V, é criado em 1857 o Asylo da Ajuda. Destinava-se a recolher os órfãos de ambos os sexos, filhos das vítimas da cólera e da febre amarela, ficando instalado num edifício da Calçada da Tapada na Ajuda em Lisboa. A idade de admissão situava-se entre os 7 e os 18 anos, recebendo os órfãos, para além da instrução primária, uma formação diferenciada de acordo com o sexo. As raparigas eram preparadas para futuras criadas de servir, e os rapazes aprendiam um ofício mecânico.

No ano de 1858, trouxe para Portugal dias mais sossegados e mais felicidade. Para suavizar as angústias dos dois anos anteriores, tratou-se do casamento do jovem monarca, que se tornara o ídolo do povo. Essa notícia foi recebida com o maior entusiasmo sendo a esposa escolhida a princesa de Hohenzollern-Sigmaringen, D. Estefânia Josefina Frederica Guilhermina Antónia ( 1837 - 1859), segunda filha do príncipe soberano do Hohenzollern-Sigmaringen, Carlos António Joaquim, e de sua mulher D. Josefina Frederica. Anteriormente foram algumas as propostas de possíveis noivas para D. Pedro. Chegou a falar-se, mesmo sem a existência de algum documento que tenha atestado qualquer interesse matrimonial,  de um possível casamento com a filha mais velha da rainha Vitória do Reino Unido, a princesa Vicky, no entanto o jovem D. Pedro nunca ignorou que a futura noiva não poderia ser uma princesa oriunda de família protestante, vendo para além disso desde sempre em Vicky uma espécie de irmão mais velha, cuja companhia permitia conversas mais joviais sempre que passava temporadas em Londres nas suas deslocações. Outro hipotético caso foi o do matrimónio com a princesa belga Carlota, discutido entre o pai desta e a rainha Vitória. Mas seria Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen a escolhida para D. Pedro por indicação do príncipe consorte Alberto de Inglaterra. D. Estefânia reunia todas as características que se conjugavam com as de D. Pedro e vice versa. O casamento foi feito por procuração em 29 de abril de 1858, na Igreja de Santa Hedwig em Berlim. O conde de Lavradio foi responsável pelo contrato do matrimónio. No dia 4 de maio de 1858, D. Estefânia seguiu para Bruxellas, e no dia 5 partiu para Ostende, onde a esperava o navio a vapor Mindelo em que devia embarcar, o qual era acompanhado pela corveta a vapor Bartolomeu Dias e por dois iates ingleses. A esquadrilha, assim que teve a bordo a rainha, levantou ferro, e seguiu para Dover, onde chegou no dia 6, permanecendo a rainha D. Estefânia em Londres quatro dias com a rainha Vitória. A 11 de maio embarcou em Plymouth na corveta a vapor Bartolomeu Dias, e escoltada por uma nau e três fragatas inglesas seguiu para Lisboa, onde chegou a 17 de maio. Ao romper da aurora desse dia 17 de maio de 1858, D. Estefânia, foi saudada à sua chegada a Lisboa por salvas do castelo de S. Jorge e de outras fortalezas, assim como de embarcações de guerra nacionais e estrangeiras que estavam fundeadas no Tejo. Os vivas e as aclamações, que o povo soltava durante o trânsito do Terreiro do Paço, onde a jovem rainha desembarcou, chegaram ao delírio segundo os relatos da época. O Terreiro do Paço estava todo engalanado, exibia um pavilhão a toda a largura  do Cais das Colunas para a sua recepção. Foram decretados cinco dias de gala na corte e feriado nas repartições do Estado.  Armaram-se dois pavilhões no Terreiro do Paço, em cujas embocaduras se viam elegantes arcos, assim como no Pelourinho, Cais do Sodré, e em outros pontos da cidade de Lisboa. No Rossio, onde está hoje a memória de D. Pedro IV, em que apenas havia um pedestal à época, improvisou-se uma coluna, sobre a qual se via a estátua de Hymeneu (deus grego do casamento). A cerimónia do casamento propriamente dito realizou-se em Lisboa, no dia seguinte à sua chegada, a 18 de maio de 1858, na igreja de São Domingos, celebrado pelo cardeal patriarca de Lisboa D. Guilherme I (1793 - 1857). Um formoso dia de primavera, que parecia vir também saudar os régios noivos, reunindo-se ao entusiasmo que se notava por toda a parte, à alegria e satisfação que reflectia em todos os semblantes.
Quando D. Estefânia saiu da igreja de São Domingos, pela mão do seu marido D. Pedro V, rei de Portugal, as vozes dos portugueses ditaram-lhe o destino: a rainha vai morta! Vai de capela! Três gotas de sangue haviam-lhe manchado o vestido branco imaculado. A jovem princesa alemã não teve forças para aguentar o peso do magnífico diadema que D. Pedro lhe oferecera como prova do seu amor. Nos dias seguintes foram exibidas iluminações esplêndidas, parada, récita de gala no teatro de D. Maria II e jantares diplomáticos. A rainha D. Estefânia granjeou logo também as maiores simpatias, o seu carácter, que poucas vezes se encontra nestas uniões monárquicas, estava em perfeita harmonia com o carácter de seu marido. Os régios esposos amaram-se extremosamente. Passaram em Sintra a lua-de-mel durante o Verão desse ano de 1858, e muitas vezes se encontravam passeando sozinhos de braço dado pelos caminhos mais solitários da serra, passeios esses que muitas vezes se repetiram, em Lisboa, pela zona de Alcântara (à época arredores de Lisboa), e que inspiravam ao povo a mais profunda simpatia, porque davam um exemplo não muito frequente de amor no casamento e de amor no trono, e o exemplo das virtudes domésticas mais elevadas com a pureza do seu viver, com o afecto que os unia, o qual se manifestava a cada instante. D. Pedro V, para impressionar a sua consorte, não poupou despesas com a decoração dos aposentos de D. Estefânia, no Palácio das Necessidades. Mandando vir de Paris móveis, candeeiros, carpetes e tecidos para estofos e cortinados, tudo do mais elegante e de qualidade que existia. Também a ala sul do Palácio de Mafra que já tinha sofrido alterações em 1855, volta novamente a sofrer algumas alterações nesta época, para assim receber os monarcas, nomeadamente nas temporadas de caça do qual D. Pedro V era adepto, havendo uma sala exclusivamente dedicada a este monarca.
 
 




Fotografia do jovem rei D. Pedro V aos 21 anos em 1858
(arq. priv.)



Tempos de alguma calmaria com a iluminação do Passeio Público de Lisboa em 1857,
desenho de Bordalo, numa gravura de Coelho in Archivo Pittoresco (col. priv.)




O jovem rei D. Pedro V e sua assinatura em 1858 (col. pess.)

 

Fotografia de Stephanie of Hohenzollern-Sigmaringen 1837 - 1859,
futura rainha de Portugal D. Estefânia (arq. priv.)





Gravura do retrato de D. Estefânia em ambiente de época,
aquando da sua estadia no Reino Unido em 1858
(col. pess.)

 
 
 
Jovem casal real D. Pedro V e D. Estefânia em litografias aguareladas de 1858 (col. priv.)




Rei D. Pedro V aos 21 anos em 1858 (col. priv.)




Chegada de D. Estefânia a Lisboa na corveta a vapor Bartolomeu Dias
em 17 de maio de 1858 (col. priv.)
 
 
 
Chega a Lisboa de D. Estefânia no Terreiro do Paço em 17 de maio de 1858,
foto Amédée de Ternante (arq. priv.)



Momento da recepção de D. Estefânia no pavilhão montado no Terreiro do Paço em 17 de maio de 1858,
desenho de Nogueira da Silva, numa gravura de Coelho in Archivo Pittoresco (col. pess.)




Passagem do cortejo real no Terreiro do Paço, com o coche que transportava D. Estefânia
no dia da sua chegada a Portugal em 17 de maio de 1858 in Le Monde Ilustré (col. pess.)



Multidão sob o arco construído na Rua do Ouro durante o casamento real
de D. Pedro V com D. Estefânia em 18 de maio de 1858,
 desenho de Nogueira da Silva, numa gravura de Coelho
in Archivo Pittoresco (col. pess.)




Multidão junto à coluna erguida no Rossio
 com o Deus grego Hymeneu no dia do casamento real
de D. Pedro V com D. Estefânia em 18 de maio de 1858,
desenho de Nogueira da Silva, numa gravura de Flora
in Archivo Pittoresco (col. pess.)



Igreja de São Domingos em Lisboa, na actualidade, onde se celebrou
o casamento real de D. Pedro V com D. Estefânia
em 18 de maio de 1858 (foto Paulo Nogueira)




Casamento oficial entre o rei D. Pedro V e D. Estefânia na igreja de São Domingos em Lisboa,
em 18 de maio de 1858 (col. pess.)



O casal real D. Pedro V e a rainha D. Estefânia
em litografia aguarelada de origem francesa
(col. priv.)




Medalha alusiva ao casamento do rei D. Pedro V e D. Estefânia em 18 de maio de 1858,
verso e reverso (col. priv.)



Fotografia do jovem casal real D. Pedro V e D. Estefânia em 1858
(col. priv.)



Paisagem de Sintra onde os jovens monarcas passaram a Lua de Mel em passeios pelo campo,
 desenho Nogueira da Silva, numa gravura de Coelho in Archivo Pittoresco (col. pess.)





                         Retratos dos reis D. Pedro V e de D. Estefânia em 1858, em litografias aguareladas (arq. BNP)
 



Rei D. Pedro V e D. Estefânia com outros membros da Casa Real em Sintra em 1858 (arq. priv.)



Palácio das Necessidades em Lisboa onde o casal real D. Pedro V e D. Estefânia passam a habitar,
prova em albumina, de Francesco Rocchini, photographo (arq. BNP)



Pormenor do monograma do casal real D. Pedro V e D. Estefânia no tecto do quarto da rainha
no palácio das Necessidades em Lisboa (arq. priv.)



Cama e conjunto de quarto especialmente encomendado por D. Pedro V para D. Estefânia
(col. Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa)
 
 
O casal real D. Pedro V e D. Estefânia com os infantes e D. Fernando II em 1858 (arq. priv.)




Basílica e palácio de Mafra em finais dos anos 50 do séc. XIX in Archivo Pittoresco (col. pess.)



Sala D. Pedro V no Palácio Nacional de Mafra decorada à época, com retrato equestre do monarca 
e os bustos dos jovens monarcas D. Pedro V e D. Estefânia, na actualidade (foto Paulo Nogueira)




Foi nesse ano de 1858 que D. Pedro V teve a nobre ideia de fundar em Lisboa os altos estudos literários que não existiam em Portugal e que depois da morte dele pouco desenvolvimento tiveram. Cedeu uma parte da sua lista civil para se comprarem inscrições, que constituíssem a dotação de um novo estabelecimento de instrução superior, o Curso Superior de Letras, onde se criaram as cadeiras de história, literatura antiga, literatura moderna, filosofia da história e de filosofia transcendente, cadeiras que foram regidas por Lopes de Mendonça, Rebelo da Silva, Jaime Moniz, etc. Era essa a fundação, por quem D. Pedro V nutria muita simpatia, e muitas vezes o estudioso monarca que amava as letras e a ciência, ia ouvir as lições dos professores, escutando de preferência a palavra inspirada e eloquente do grande Rebelo da Silva. Foi, juntamente com a sua esposa, a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen, que Pedro fundou hospitais públicos e instituições de caridade. Aliás, cumprindo os desejos por ela manifestados após uma visita ao Hospital de São José, onde a rainha ficou impressionada com a promiscuidade com que na mesma enfermaria eram tratadas crianças e adultos. A rainha D. Estefânia ofereceu o seu dote de casamento para que aí fosse criada uma enfermaria para as crianças, tendo manifestado também o desejo de construir um hospital exclusivamente para crianças pobres e enfermas. Mas ainda não estavam completas as provações por que tinha de passar o infeliz rei, no seu tão curto reinado de apenas seis anos. Sucederam um ao outro dois factos que profundamente o feriram, um como rei, e o outro como esposo dedicado e carinhoso. Sendo um defensor acérrimo da abolição da escravatura, data do seu reinado um episódio que atesta a convicção do monarca nessa matéria e que simultaneamente demonstra a fragilidade de Portugal perante as grandes potências europeias, quando em 1859 junto à costa de Moçambique é apreendido o navio negreiro francês Charles et Georges, tendo o seu comandante sido preso. O governo de França não só exigiu a libertação do navio, tendo para isso enviado uma esquadra às águas do Tejo tomar aquele navio e afrontar a bandeira portuguesa, bem como exigindo uma avultada indemnização ao governo português. Ainda os diferendos com a Inglaterra pelos domínios em África e com a Santa Sé. Como esposo, viu nesse mesmo ano, a 17 de julho, falecer a sua esposa aos vinte e dois anos de idade, vítima de uma angina diftérica. A doença teria sido contraída durante uma visita a Vendas Novas. As últimas palavras de D. Estefânia terão sido: "Consolem o meu Pedro!". A morte de D. Estefânia deixou D. Pedro inconsolável com tão grande perda. Ficou memorável a sentida carta que o monarca escreveu ao duque da Terceira, então presidente do conselho de ministros, carta esta repassada de tão profunda melancolia e escrita com eloquente singeleza. "Eu e os meus povos temos sido companheiros de infortúnio, diz-me a consciência que os não abandonei." Assim aconteceu, o povo também o não desamparou nessa angústia suprema; "Era um coração para a terra e um espírito para o céu", acrescentava D. Pedro V, referindo-se à esposa que perdera. A morte de D. Estefânia deixou grandemente consternado não só o rei, como também o povo em geral, que por ela desenvolvera um grande afecto e carinho. Devido à sua morte precoce, o casal não teve quaisquer filhos. Surge com isso, uma lenda urbana, que seria criada após a sua morte, com origem em declarações do médico José Eduardo de Magalhães Coutinho (1815 - 1895), provavelmente a pedido da rainha D. Maria Pia (1847 - 1911). Segundo essa lenda urbana, a rainha e o rei nunca se teriam relacionado de forma mais íntima. Tal mentira ou não, espalhada depois por outras pessoas que a não conheceram nem estiveram presentes na alegada autópsia (da qual não existe prova), durou até aos dias de hoje, sendo repetida por alguns historiadores que nunca citam fontes fiáveis. Afinal o povo que tanto amou e idolatrou o rei D. Pedro V, também falou por preconceito, sem grande fundamento, da vida íntima do seu monarca, coisas tipicamente de gente pouco formada e mal agradecida. No entanto os discursos de D. Pedro V eram sempre cheios de ideias elevadas, e escrevia num estilo nervoso e muito conciso, que por vezes ia à obscuridade. Os críticos acusavam esse estilo enigmático, e diziam que el-rei, que conhecia bem a cultura alemã, simpatizava por isso com a filosofia germânica influenciado por seu pai D. Fernando. A verdade é que ele procurava apenas consubstanciar no mais pequeno número de palavras possível o maior número possível de ideias. Não se limitava só a discursos nem à actividade intelectual. Na Revista Contemporânea de Portugal e Brazil escreveu com o pseudónimo de Azonbolos, um estudo acerca da tomada de Gaeta pelas tropas piemontesas. Muitos fragmentos de estudos filosóficos e morais ficaram misturados com os seus papéis depois da sua morte. D. Pedro V muitas vezes desabafava as suas dores mais íntimas e aflitivas com Joaquim Pinheiro Chagas (1808 - 1859), seu secretário. Fora o seu companheiro de vigília nas horas que se seguiram à morte de D. Estefânia, em que o triste rei, depois de alguns minutos de sono agitado, acordava em grandes acessos de choro, e se abraçava ao seu secretário, que, tendo também visto morrer a mulher que amava extremosamente, sabia compreender e sabia consolar aquela dor sincera e profunda. A morte pois desse amigo fiel e dedicado foi para o rei mais um golpe profundo e inesperado, porque Joaquim Pinheiro Chagas morreu na força da vida contando apenas cinquenta anos de idade. Em 1860 o desastroso resultado da realização de uma ideia sua muito querida, o estabelecimento de um depósito de recrutas em Mafra, causou-lhe também impressão profunda e dolorosa. As más condições em que este depósito foi organizado produziram o desastre, mas D. Pedro V sentiu-o profundamente, não só porque podia atribuir-se-lhe em parte a responsabilidade da morte de tantos recrutas que foram ali expirar naquele matadouro, como por ver desfeito em fumo um dos projectos, de que ele julgava que resultariam os frutos mais proveitosos. É também após a morte da esposa, D. Estefânia, que o rei D. Pedro V fundou em Lisboa, o Hospital da Bemposta em 1860, nos antigos jardins da quinta real da Bemposta, hospital este destinado a crianças pobres e doentes como desejo da sua esposa. As obras deste hospital começam no reinado de D. Pedro V mas só será inaugurado mais tarde, em 17 de julho de 1877, após a sua morte, pelo seu irmão D. Luiz I já como rei de Portugal e designado de Hospital D. Estefânia. O monarca não era dado a grandes cerimónias de estado, assim como a convites a outros estadistas estrangeiros ilustres, ele achava que Lisboa não tinha condições para os receber tal como os próprios palácios. Conclui que os estrangeiros não poderiam avaliar o nosso grau de pobreza. A Lisboa oitocentista não tem pousadas para qualquer visitante mais exigente, nem mesmo os palácios existentes.

 



Fotografia do rei D. Pedro V em 1858 aos 21 anos (arq. priv.)




Edifício da Faculdade de Letras e Academia das Ciências de Lisboa
onde será administrado o Curso Superior de Letras,
 instituído por D. Pedro V em 1858 (col. pess.)




Rei D. Pedro V em 1859 aos 22 anos (arq. The Royal Forums)



D. Estefânia de Hohenzollern Sigmaringen nos seus trajes de visita
aos enfermos e mais necessitados (col. priv.)




Navio negreiro francês Charles et Georges, apreendido por Portugal em 1859
junto à costa de Moçambique (col. priv.)




Sala do palácio das Necessidades em Lisboa, na actualidade, outrora o quarto onde morreu D. Estefânia
em 17 de julho de 1859 (arq. priv.)



D. Estefânia de Hohenzollern Sigmaringen rainha consorte de Portugal,
morre a 17 de julho de 1859, foto autor desconhecido
(col. Eduardo Nobre)



Cortejo fúnebre da rainha D. Estefânia na igreja de S. Vicente de Fora em julho de 1859
in Illustração Luso Brazileira (col. pess.)



D. Pedro V no seu gabinete contemplando o retrato de D. Estefânia
no seu gabinete em 1859 (col. priv.)



Retrato do jovem rei D. Pedro V aos 23 anos, viúvo e infeliz
(col. priv.)




Revista Contemporanea de Portugal e Brazil Vol. II de abril de 1860,
onde o rei D. Pedro V publicou alguns trabalhos da sua autoria
(arq. Hemeroteca Digital de Lisboa)



Rei D. Pedro V de Portugal em 1860 (col. pess.)




Inicialmente chamou-se Hospital da Bemposta mas em homenagem à rainha, que entretanto falecera,
passará a designar-se de Hospital D. Estefânia (arq. AML)



Castelo de S. Jorge num aspecto do quotidiano da cidade de Lisboa dos anos 60 do séc. XIX,
numa gravura de Coelho in Archivo Pittoresco (col. pess.)


Aspecto do Terreiro do Paço na década de 60 do séc. XIX, prova em albumina,
de Francesco Rocchini, photographo (arq. BNP)




 D. Pedro V foi duque de Saxe-Coburgo-Gotha, grão-mestre das ordens militares de Cristo, S. Bento de Avis e S. Tiago da Espada; grã-cruz das da Torre e Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa; cavaleiro da ordem do Tosão de Ouro, de Espanha, e da ordem Suprema da Santíssima Anunciada, de Sardenha; cavaleiro de primeira classe, em brilhantes, da de Hohenzollern; grã-cruz das ordens do Cruzeiro do Sul, do Brasil; de Santo Estevão de Hungria, da Áustria; da Águia Negra, de Saxónia Real; do Leão Neerlandês, dos Países Baixos; do Falcão Branco, de Saxe-Weimar; da Legião de Honra, de França; de S. Fernando e Mérito, de Duas Sicílias.
D. Pedro V respeitava os homens políticos importantes do seu tempo, e era grande respeitador de Alexandre Herculano, a quem visitava frequentes vezes, entretendo com o notável historiador discussões científicas; passava largas horas, quando estava em Mafra, a consultar crónicas e outros livros antigos daquela valiosa biblioteca. Dedicava-se à música, tocando excelentemente piano, era notável na esgrima, bom atirador, e desenhava com gosto e facilidade, possuindo o dom especial de caracterizar uma pessoa ao primeiro repente com três ou quatro traços, ficando do seu lápis muitas caricaturas notáveis pela graça e pela rapidez e firmeza do traço. A caça era um dos seus prazeres predilectos. Foi ele que aboliu por completo o beija-mão, etiqueta palaciana que era um dos restos legados pela soberania absoluta, e recusou-se a confirmar a pena de morte. Não queria ver os cidadãos, entre os quais era ele o primeiro, dobrarem o joelho na sua presença, porque essa vénia só pertence à Divindade como só a ela pertence tirar a vida aos homens. Entendia que a cerimónia do beija-mão era um acto de servilismo indigno de todo o homem que se preza, como entendia que à justiça humana unicamente compete corrigir os delinquentes, pela reclusão e pelo trabalho, para os restituir à sociedade, purificados e prestadios. O rei D. Pedro V, acaba com tudo isso, dizendo: "ajoelhar….1 homem só se ajoelha perante Deus, que está acima dele, todos os outros homens são irmãos", " ninguém tem de ajoelhar-se diante de ninguém" e "beijar a mão…isso pode-se beijar a mão a um pai a uma mãe…agora eu não sou pai dos Portugueses…sou irmão deles" "portanto mais ninguém me vai beijar a mão" "um português que estime outro Português aperta-lhe a mão é com um leal aperto de mão que exprime a sua amizade".
 

 
Retrato do jovem monarca D. Pedro V
com algumas das suas condecorações, óleo sobre tela
(col. priv.)



Algumas das Condecorações de Ordens
atribuídas ao rei D. Pedro V de Portugal
 
Grão-mestre das ordens militares de Cristo
(col. priv.)


 Ordem Militar de Avis
(col. priv.)
 
 
Ordem Militar de Sant'Iago da Espada
(col. priv.) 
 
 
Grã-cruz da Torre e Espada e
de Nossa Senhora da Conceição
de Vila Viçosa (col. priv.)
 
 
 
Retrato de D. Pedro V em 1860, óleo sobre tela
(col. Palácio Nacional de Mafra)
 
 
 
 
 
D. Pedro V, em 1861, o rei liberal por excelência (col. priv.)
 



O rei D. Pedro V empreendeu muitas viagens de norte a sul de Portugal, à cidade do Porto onde fez diversas visitas e inaugurações, como em 1860 na companhia do seu irmão D. Luiz I a inauguração da Exposição Agrícola do Porto, visita a cadeia da Relação do Porto, onde se encontravam presos o escritor e romancista Camilo Castelo Branco (1825 - 1890)  e Ana Plácido (1831 - 1895), assim como uma importante visita nesse mesmo ano a Setúbal. Em 1861 volta ao Porto e a Braga onde novamente faz visitas de estado e algumas importantes inaugurações como inauguração simbólica em 3 de setembro desse ano, do que viria a ser mais tarde o Palácio de Crystal Portuense. No que respeita a avanços no estudo das ciências, no ano de 1861 o rei D. Pedro V tem a iniciativa de dotar finalmente Lisboa com um Observatório Astronómico. Tendo para isso já promulgado o decreto para esse efeito em 14 de fevereiro de 1857, resultante da iniciativa e financiamento pelo rei D. Pedro V em 31 de janeiro de 1857.  Assim em 11 de março de 1861 dá-se início à construção do Real Observatório Astronómico de Lisboa na Tapada da Ajuda em Lisboa.
Em outubro de 1861 uma viagem que el-rei empreendeu ao Alentejo, mais propriamente a Vila Viçosa, com os seus irmãos, D. Augusto de Bragança e D. Fernando Maria Luiz de Bragança, teve os mais funestos resultados. Contraíram nessa província umas febres paludosas (como eram designadas à época), após ao que consta, terem bebido água contaminada de um poço, que em breve tomaram um carácter profundamente grave. O infante D. Fernando Maria Luiz de Bragança faleceu em 9 de novembro, e dois dias depois, a 11 de novembro, falecia também o rei D. Pedro V, no mesmo quarto onde nascera no Palácio das Necessidades, na florescente idade de vinte e quatro anos, da mesma doença, que hoje se conhece por febre tifoide, segundo o parecer dos médicos. Foi então que se conheceu quanto ele era profundamente estimado e querido. O povo apenas teve notícia da grave doença do rei e de seus irmãos, agrupou-se aflitíssimo em torno do palácio. Primeiro houve só a angústia e ansiedade, depois começaram a brotar suspeitas de crime, e a morte do infante D. Fernando Maria Luiz de Bragança, o estado gravíssimo em que se achava o infante D. Augusto de Bragança e o estado perfeitamente desesperado do rei, mais confirmaram ainda as ideias de envenenamento. De assinalar a visita que o rei fizera a Castelo de Vide, no dia 7 de outubro de 1861, cerca de um mês antes de morrer, perpetuando deste modo a memória de um rei que apelidou Castelo de Vide de "Sintra do Alentejo". O monarca fora recebido na região com provas de grande estima por parte da população, e a notícia do seu falecimento causou grande consternação. A morte do rei veio redobrar a agitação da cidade de Lisboa. Os dois irmãos do rei, D. Luiz I de Portugal e D. João de Bragança, que andavam, viajando, regressaram apressadamente à pátria, e chegaram pouco depois da morte de D. Pedro V. Atacado por uma doença, com sintomas idênticos aos de seus irmãos, D. João de Bragança também faleceu, no seguinte mês de dezembro. O funeral de D. Pedro V foi a mais dolorosa expressão de luto a que Lisboa assistiu desde 1834. Um funeral sem carruagens, porque desde o Palácio das Necessidades até ao Panteão de São Vicente de Fora, foi o cortejo seguido por uma multidão incontável. Estiveram presentes membros da nobreza e do clero, deputados e senadores, militares e escritores acompanhavam à sepultura o rei que abrira um horizonte de esperança na vida nacional. A propósito disso Raimundo António de Bulhão Pato (1828 - 1912), escreveu: "Foi a primeira vez que vi Alexandre Herculano chorar como uma criança." D. Pedro V jaz no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa. Tudo isto deu origem aos tumultos do Natal, classificados por José Estevão na seguinte frase célebre: "É a anarquia da dor protestando contra o despotismo da morte." O sentimento era geral e profundo em todo o País. Pouco depois dizia-se de tudo, desde que D. Pedro V morreu virgem, até que teria sido envenenado por aqueles a quem o seu poder pessoal fazia sombra. Vária figuras foram dadas como culpadas sem provas como o marquês de Loulé, que pretendia vingar-se do monarca pela primeira demissão do seu Governo, outros culpavam o banqueiro espanhol D. José de Salamanca y Mayol (1811 - 1883), credor do Estado pelas somas que investira na construção das primeiras linhas de caminho de ferro e em cuja residência D. Pedro V teria jantado na noite em que regressou do Alentejo. Há cenas de pranto descontrolado, desacatos, e arruaças, crimes em plena rua por alguns para vingar o rei. Lisboa não se consola da perda que sofreu. Com o jovem monarca D. Pedro V é já uma boa parte do século XIX que vai a enterrar, a crença nos valores iniciais do Liberalismo, o apoio inflamado à causa constitucional, o orgulho pátrio ainda por ferir. Ficou célebre entre muitas, a seguinte fase de D. Pedro V: "O homem é pouco quando lhe cortam a língua." Já mais recentemente o escritor, romancista e historiador Ruben Andersen Leitão (1920 -1975), considerou D. Pedro V na sua obra "D. Pedro V Um Homem e Um Rei", como o "primeiro homem moderno do nosso País". Pode no entanto considerar-se, a avaliar por toda a sua vida de monarca, o rei D. Pedro V como, para além do primeiro homem moderno em Portugal, um rei com muita competência, dotado de uma grande cultura e um visionário para o seu tempo. Foi, tal como um dos seus cognomes, um rei da esperança... Quem sabe se Portugal teria seguido um rumo diferente se D. Pedro V não tivesse desaparecido tão cedo?!


 
 
Rei D. Pedro V em 1860 num período de algumas visitas e inaugurações
 de exposições importantes pelo país (col. pess.)
 


Recepção a D. Pedro V na cidade de Setúbal em 1860, desenho de Nogueira da Silva,
numa gravura de Pedrosa, in Archivo Pittoresco (col. pess.)



Rei D. Pedro V de Portugal em 1861 (col. priv.)



Alusão de 1864 à inauguração do Palácio de Crystal Portuense
obra iniciada em 1861 pelo rei D. Pedro V (col. priv.)



Projecto da estátua em homenagem ao rei D. Pedro V na cidade do Porto
(col. pess.)



Real Observatório de Lisboa, uma iniciativa do rei D. Pedro V de 1861
(col. pess.)



Rei D. Pedro V de Portugal aos 24 anos em 1861,
num dos seus últimos retratos (col. priv.)




Albuminas de 1861 com grupo de familiares e amigos da Casa Real Portuguesa
incluindo o rei D. Pedro V sentado à direita de ambas as imagens
(arq. Royal Collection)

 
 
 
Palácio das Necessidades onde morre em 11 de novembro de 1861 D. Pedro V,
foto J. P. N. da Silva (col. pess.)
 
 

Rei D. Pedro V morre em 11 de novembro de 1861,
foto autor desconhecido (col. Eduardo Nobre)



Cortejo fúnebre do rei D. Pedro V, em novembro de 1861 in The Illustrated London News (col. pess.)



Medalhas populares que o rei D. Pedro V levou no seu ataúde
in Archivo Pittoresco de 1861
 (Hemeroteca Municipal de Lisboa)




Estátua em homenagem ao rei D. Pedro V em Castelo de Vide,
uma das suas últimas viagens (foto Paulo Nogueira)




Entrada do Panteão da Dinastia de Bragança na actualidade
no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa
(arq. priv.)


Panteão da Dinastia dos Bragança na actualidade no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa
onde repousam os restos mortais de D. Pedro V e de D. Estefânia (arq. priv.)





Alusão a D. Pedro V, D. Estefânia e à inauguração do caminho de ferro em Portugal
em nota moeda de mil escudos de 1980, frente e verso (col. priv.)









Texto:
Paulo Nogueira



Fontes e bibliografia:
Archivo Pittoresco: semanário illustrado, Tomo I, nºs 48, 49 e 50, maio de 1858, Ed. Castro Irmão Cª, Lisboa
VILHENA, Júlio de, D. Pedro V e o seu Reinado, Lisboa, Academia das Ciências, 1921-22
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, HISTÓRIA DE PORTUGAL, vol. IX O Terceiro Liberalismo, [1851 -1890], Editorial Verbo, Lisboa, 1986
DIAS, Marina Tavares, Lisboa Desaparecida, volume VI, Quimera editore, Coimbra, 1998
LEITÃO, Ruben Andersen, D. Pedro V Um Homem e Um Rei, Texto Editores, Lisboa, 2011

RODI, Sara, D. Estefânia Um Trágico Amor, Esfera dos Livros, Lisboa, 2012